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As redes de comunicação e a sua “influência” na política internacional

Pedro Malheiro, CEO da e.Gen Ventures

Publicado em 27 Abril 2017 | 913 Visualizações

Quando o Instituto Superior Técnico, agora pertencente à grande Universidade de Lisboa criou o curso de Engenharia de Redes de Comunicação e Informação, em 1999, hoje com o nome de Engenharia de Telecomunicações, certamente estaria à espera que o mundo estivesse em evolução no sentido da criação de cada vez mais projetos na área das telecomunicações. Vivíamos uma época de incerteza quanto às decisões tecnológicas a seguir nas empresas de telecomunicações, uma altura em que a internet nos telemóveis começava só a ser uma pequena realidade com serviços “wap” que não passavam de uns pedidos de informação, usando algo parecido com os sistemas de “sms” para enviar e receber comunicação, obviamente, sem grandes efeitos visuais.

Nessa altura apenas os geeks ou nerds é que teimavam em usar, programar ou explorar, sendo que a preocupação com a segurança não era tão grande, apesar de existirem muito mais falhas que hoje em dia, a informação das pessoas na internet era relativamente nenhuma e a tecnologia de comunicação pessoal na internet mais disseminada era o IRC, vulgo através da “plataforma” mIRC.

Eram alturas em que os jornais, revistas, rádio e televisão transportavam as notícias, em modo broadcast, sem qualquer intenção de receber feedback e muito menos que as pessoas fossem capazes de conseguir retransmitir ou alterar a notícia de forma a disseminar uma mensagem que pudesse realmente fazer algum efeito. Era uma espécie de monólogo, que as pessoas ouviam, comentavam no café e calavam-se, porque, na realidade, era como se a sua voz estivesse num fundo do poço, onde só alguns escutavam, passavam e de nada mais queriam saber. Até porque, muito provavelmente, os problemas no nosso dia-a-dia eram só nossos e mais ninguém tinha a ver com isso. Além de bom dia, boa tarde, boa noite e até amanhã, as pessoas, na realidade, não precisavam de comunicar muito mais com estranhos, apenas faziam um exercício de boa vontade e educação, na certeza e segurança de que tinha o poder e total controlo de toda a sua vida e de toda a informação à volta da mesma.

Esse era um mundo perfeito, aquele em que cada um controlava o seu próprio microuniverso, com a certeza de que se quisesse ser uma pessoa pública, teria que conseguir que um dos meios de comunicação unilateral que existiam na altura, aqueles que eram os media, investisse em si e no seu talento, de forma a que pudesse começar a fazer parte de um jet-set que o fizesse crescer na fama, política, no mundo do espetáculo ou que, pura e simplesmente soubessem de quem se tratava porque se esforçava imenso para não envelhecer e então as suas plásticas constantes ficariam conhecidas.

 

Mas o IST tinha razão.

O mundo estava a evoluir rapidamente, a transformar-se tanto que não fazer um curso para criar engenheiros capazes de acompanhar esse crescimento e essa evolução, iria ser uma perda enorme para o país, para a própria reputação do Instituto e para todos aqueles que perderiam a oportunidade de perseguir o sonho de ser um cavaleiro da autoestrada da informação.

Mas a verdade é que, certamente, nem o mais dos iluminados professores responsáveis por tal opção poderia ter a noção do que por aí vinha. Aliás, a evolução da autoestrada da informação é tão rápida, que nem as autoestradas sem limite de velocidade na Alemanha são suficientes para explicar o que é o crescimento da quantidade de informação que todos os dias se gera na internet. Teríamos que imaginar uma autoestrada com milhões de faixas, cheias de camiões cisterna carregados de informação a viajar próximos da velocidade da luz, mesmo quando existem curvas. Analogia interessante, certo?

O que é certo é que, ao longo dos últimos 15 anos vivemos um tal crescimento do caos de informação que já nem as agências de gestão de informação por todo o mundo conseguem sequer controlar, monitorizar ou policiar, porque a realidade é que já se perdeu o controlo por completo.

Quando vi Barack Obama ganhar as eleições para presidente dos Estados Unidos da América ser reconhecido como uma máquina de marketing que ganhou as eleições porque estaria a trabalhar muito bem a sua imagem e a sua mensagem nas redes sociais, apercebi-me que ainda muito estava por explorar nesta área e, apesar de estar constantemente a acompanhar e a visualizar o futuro, como se a série Netflix Black Mirror estivesse constantemente a acontecer no meu cérebro, sempre procurando perceber onde estão as oportunidades para mim e para as empresas que lidero, a realidade é que estamos naquele que julgo ser o momento mais “negro” da história dos sistemas de informação em termos de perigo, descontrolo, inadaptação da segurança à liberdade total da navegação da informação e em termos da quantidade de engenheiros disponíveis no mercado para fazer face à elevada necessidade que todos temos.

Hoje já não vivemos num mundo em que os nossos avós não sabiam usar um computador. Agora desde que nascem os bebés e até que morrem os nossos parentes, todos têm um monitor, um ecrã, uns phones nos ouvidos, sabemos o que se passa em qualquer parte do mundo em questões de segundos, mesmo quando estamos a falar de pessoas a ser violadas ou desmembradas em direto. Sim, em direto.

Mas quando este problema chega aos maiores níveis políticos do mundo, quando a própria CIA e FBI ou NSA perderam o controlo do sistema ao ponto de achar que a Rússia foi quem conseguiu forçar a eleição com base em gestão da informação em real time usando os recursos à disposição de qualquer um na internet, bastando para isso montar falsas notícias, despejar informação sem interesse ou ainda criar uma imagem do atual presidente e que não corresponde à verdade, atingimos um ponto de real preocupação.

É certo que a política se trata de transmissão de mensagens estratégicas para que exista ordem e para que exista progresso, mas quando essa mensagem é facilmente deturpada de forma a que o outcome beneficie um país que provoca distúrbios e que procura, claramente, a implantação de um novo império fazendo uso de todos os meios disponíveis, o perigo está realmente à espreita.

Como analogia, pensemos como seria o mundo hoje em dia se o Hitler tivesse tido acesso a toda informação em real-time, sistemas de localização de pessoas ligados 24×7, que todas as conversas que tem ao telefone hoje em dia estivessem a ser escutadas por equipas daquele ditador e que pudesse, em real-time produzir informação que garantisse que os seus inimigos se transformassem em seus aliados. De uma coisa tenho a certeza: o mundo não seria igual nos dias de hoje.

Mas não quero com isto dizer que tenho uma visão pessimista do futuro. Pelo contrário. As oportunidades e a evolução são assim mesmo, há momentos negros da história que são necessários para que possamos aprender com eles e possamos encontrar novas ideias, transformações ou até novas soluções que nos transportem novamente para uma convivência pacífica, com prosperidade e evolução humana sempre procurando o mais alto nível de respeito dos valores humanos.

O exercício que muitas vezes faço é olhar para as gerações mais jovens e perceber a generalidade da interação destes com a tecnologia, para perceber aquilo que nos poderá reservar o futuro. E olhando para a evolução recente da utilização da internet por parte da geração adolescente é simples perceber que estes procuram maior reserva da sua informação. Não é por acaso que a plataforma Snapchat tem crescido à velocidade que tem crescido e não é por acaso que plataformas como o whatsapp, Facebook e Instagram estão a tentar seguir a tendência, procurando convencer os jovens de que a sua plataforma é a melhor nesta procura.

A procura pelo mediatismo está a ser trocada pelo imediatismo. Os jovens não querem que a sua informação, as suas fotos ou os seus vídeos, que são partilhados de forma efervescente, irreverente e sentimental, sejam partilhadas com os demais, evitando assim o bullying social com recurso às redes sociais. A realidade é que os adolescentes gostam de ser irreverentes, mas a história também está disponível e conta-lhes que o melhor é manter reservada a sua própria vida, sob pena de colocar o seu futuro em risco, fruto de atitudes menos pensadas.

E isto diz-me que o futuro pode ser um pouco mais brilhante, num mundo onde a persistência de histórico deve ser guardada para a memória futura, quando contada por pessoas especializadas nesse ramo: historiadores.

O que seria ver D. Afonso Henriques a desmembrar pessoas ou a fazer sexo com a sua rainha, ou pior, com as suas amantes? Será que hoje teríamos a mesma imagem deste rei tão importante para a nossa história, para o orgulho Português no nosso passado?

O presente é, de facto, perigoso, porque a informação não é controlada, mas é canalizada à medida daqueles que têm intenções menos dignas. O futuro é aquilo que nós, enquanto massa de pessoas, decidirmos, como sempre foi.

 

As pessoas, unidas, são sempre mais fortes.

Hoje em dia temos plataformas e ferramentas de comunicação que permitem juntar ideais e idiotas. Faz parte do nosso destino optar, a minha opção é a de continuar a contribuir individualmente no trabalho conjunto diário para conseguir um mundo melhor. Cabe-nos a nós, aqueles que querem um mundo melhor, continuar a trabalhar para que aconteçam coisas boas, sem ter medo de dizer o que pensa, mas reservando a sua atenção para a audiência que realmente interessa:. Tudo é possível? O impossível é só um bocadinho mais difícil!

 


Publicado em:

Opinião

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