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«É pelo investimento em produtos e serviços inteligentes que Portugal vai continuar a ser competitivo no mercado externo»

Maria da Luz Penedos, Managing Director da Capgemini Engineering

Publicado em 2 Novembro 2022 por Cristina A. Ferreira | 408 Visualizações

Adquirida pela Capgemini em 2020, a Altran está na génese da nova sub-marca do grupo francês que, a nível global, integra 52 mil colaboradores, distribuídos por 30 países. Em Portugal, a Capgemini Engineering tem 2.500 efetivos, que se distribuem por Lisboa, Porto e Fundão, e registou uma faturação de 100 milhões de euros em 2021. 

A operação local serve mais de 50 clientes, numa dezena de países e é liderada por Maria da Luz Penedos, que explicou ao Ntech.News o que mudou nesta transição, que setores são trabalhados pela Capgemini Engineering a nível local e que projetos em desenvolvimento podem fazer a diferença no futuro. 

Nesta entrevista, a responsável também sublinhou o papel que a inovação e a I&D podem ter na competitividade de Portugal, a nível internacional, e o que podíamos fazer melhor para contornar um problema que tende a agravar-se, numa das áreas que tem contribuído em força para a economia e para a geração de emprego, a área das Tecnologias da Informação. 

Maria da Luz Penedos assumiu a gestão da Capgemini Engineering Portugal e Tunísia, que formam um dos hubs de inovação da companhia, em outubro. Sucede a Bruno Casadinho no cargo, que assumiu funções como Managing Director da marca para a região Ásia-Pacífico.

Antes de ingressar nestas funções, a gestora, que está na organização desde 2001, era Head of Operations & Delivery. Maria da Luz Penedos começou a carreira na Finacom, como Software Engineer. Foi também Head of Operations, primeiro da Ncubo e depois da Global N Brasil, que acabou por ser adquirida pela Altran. 

Ntech.news: Na transição da Altran para a Capgemini Engineering, e integração no grupo Capgemini, quais são as mudanças mais importantes naquilo que se refere à oferta e portefólio da marca, assegurado a partir de Portugal?

Maria da Luz Penedos: A integração no Grupo Capgemini veio sobretudo complementar e fortalecer um portefólio já bastante bem estabelecido de ofertas e soluções estratégicas dedicadas à Intelligent Industry. O nosso portefólio está dividido em três grandes áreas: Product and Systems Engineering; Digital and Software Engineering; e Industrial Operations.

Através deste portefólio, o papel da Capgemini Engineering passa por ajudar os maiores investidores em I&D a criar os produtos e serviços do amanhã, isto graças à nossa capacidade de implementar tecnologia em grande escala, às nossas fortes competências em engenharia e vasta experiência em todas as indústrias. Em Portugal, estamos especialmente focados nas indústrias automotive, telecomunicações, lifesciences, semicondutores e eletronics.

Olhando para a oferta global da Capgemini Engineering, há áreas ancoradas sobretudo nas competências instaladas em Portugal?

MLP: Sim, nos últimos anos temos desenvolvido em Portugal uma oferta diferenciadora em três principais áreas de inovação, suportadas por três laboratórios distintos: o Futuro das Comunicações através do 5G Lab; o Futuro da Engenharia através das tecnologias quânticas com o Q Lab; e o Futuro da Mobilidade com o Mobility Lab.

O investimento nestes laboratórios permite explorar novas áreas de negócio, assim como formar os nossos colaboradores em tecnologias de ponta. Estes laboratórios são também espaços de cocriação com os nossos clientes e parceiros, onde estes podem testar novas tecnologias e novos produtos.

Cada um destes Labs está em áreas para onde se esperam grandes mudanças nos próximos anos. Em relação ao Mobility Lab, por exemplo, que benefícios tem a localização Portugal para um centro deste tipo? 

MLP: A localização do Mobility Lab em Portugal poderá trazer enormes benefícios para o nosso país. Importa contextualizar que neste lab vamos estar a desenvolver o projeto Route 25 – uma iniciativa apoiada pelos fundos do PRR, cuja coordenação e liderança está a cargo da Capgemini Engineering – que representa a criação de aproximadamente 700 novos postos de trabalho. No âmbito desta iniciativa, vão ser desenvolvidos produtos e soluções que contribuirão para elevar a posição da indústria automóvel portuguesa ao topo da cadeia de valor da mobilidade e para posicionar Portugal como um país de referência a nível global na condução autónoma segura. 

Pode dar exemplos de outras soluções e serviços em que estejam também a trabalhar neste lab?

MLP: Neste lab temos também vários outros projetos de impacto a decorrer. A título de exemplo, destaco um novo veículo 100% elétrico, com zero emissões, 50% reciclado e 95% reciclável, que está a ser concebido para elevar o carsharing a um novo patamar. Trata-se de um novo conceito de mobilidade urbana, que ficará disponível através de um serviço de aluguer de viaturas partilhadas nas cidades.

Estamos quase às portas de um novo ano marcado pela incerteza, de que forma isso está a moldar a forma dos vossos clientes olharem para 2023, em termos de prioridades e decisões de investimento?

MLP: Estamos convictos de que, ao contrário do que aconteceu entre 2009 e 2016, esta fase de incerteza não trará, novamente, grandes períodos de estagnação no investimento em atividades de I&D.

É expectável que, num contexto um pouco mais adverso, os decisores mantenham a vocação inovadora e esta seja interpretada como uma oportunidade: investir em I&D é crítico para tornar a economia mais competitiva.

É pelo investimento em produtos e serviços inteligentes, que geram valor acrescentado, que Portugal vai conseguir continuar a ser competitivo no mercado externo. No que toca aos nossos clientes em particular, constatamos que mantêm a aposta na inovação como uma prioridade para 2023.

Os planos de crescimento da Capgemini para Portugal são conhecidos. Sob a marca Capgemini Engineering quais são as principais metas de crescimento, sobretudo nas áreas de maior inovação e diferenciação, como a I&D?

MLP: Todo o investimento da Capgemini Engineering feito em Portugal visa criar as condições ideais para que clientes nacionais e internacionais possam beneficiar de um ecossistema de inovação único, com impacto na sua competitividade no presente e no futuro. Em 2023 manteremos essa estratégia de I&D, alavancando sobretudo a nossa presença em áreas como automotive, telecomunicações, lifesciences, semicondutores, e eletronics, através das novas tecnologias.

A questão do talento será um tema cada vez mais relevante nas áreas tecnológicas. Como país estamos a fazer o melhor que podemos para formar e atrair recursos que possam alimentar projetos como o da Capgemini Engineering, ou na vossa perspetiva há aspetos onde podemos melhorar?

MLP: Destaco dois grandes desafios associados à questão do talento em que temos margem para implementar melhorias em Portugal – nos planos privado e público: por um lado, a falta de formação específica e adequada; e, por outro lado, a escassez de talentos disponíveis para integrarem as organizações.

No que toca à falta de formação específica, é importante haver uma maior ligação entre as empresas e as universidades, de forma que estas consigam oferecer aos seus alunos uma formação mais adequada e próxima da realidade do mercado de trabalho.

Neste sentido, a Capgemini Engineering tem tido, ao longo dos tempos, uma atitude pioneira de criação de ecossistemas de I&D, que incluem todos os players das diferentes áreas tecnológicas, nomeadamente clientes, fornecedores, autoridades e, evidentemente, as universidades. Em sintonia, estes ecossistemas permitem criar modelos de desenvolvimento de inovação favorecedores para todas as partes e que, muitas vezes, têm uma componente forte de formação em parceria com as instituições de ensino superior envolvidas. Estamos convictos de que a criação deste tipo de oportunidades torna estas áreas de inovação muito mais atrativas e cativantes para os novos talentos.

E no que se refere à escassez de talento, o que podíamos fazer diferente?

MLP: No que diz respeito à falta de talento, o setor privado tem assumido o ónus de se reinventar, para atrair e reter talentos. Neste âmbito, temos apostado na requalificação das competências, quer através de parcerias, quer mediante a organização de Programas de Upskilling e de Reskilling próprios. Foi nesse sentido que criámos a Capgemini Engineering Talent Factory, que inclui a requalificação para as áreas de 5G, cloud, automotive ou mobile. Um maior investimento da requalificação poderia trazer um novo fôlego a um setor em que há pleno emprego, com impacto positivo nos números do desemprego.


Publicado em:

Na Primeira Pessoa

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