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Aptoide: A arte de cultivar um negócio de 7,3 milhões de euros num terreno completamente hostil

Publicado em 4 Maio 2017 por Ntech.news - Rui da Rocha Ferreira | 1379 Visualizações

Aptoide

Um total de 145 milhões de utilizadores já descarregaram pelo menos uma aplicação através da Aptoide. O número de utilizadores ativos mensais ronda os 20 milhões. Ao todo existem mais de 700 mil apps neste mercado dedicado ao sistema operativo Android, sendo um dos mais volumosos em todo o mundo. Já foi responsável pela distribuição de 3,2 mil milhões de aplicações.

Os números acabam por ser o melhor cartão de apresentação da Aptoide, uma empresa portuguesa fundada em 2011. Desde então só tem sabido crescer, contando já com quase 90 funcionários, 80 dos quais estão em Portugal e com os restantes a estarem em dois escritórios internacionais – Singapura e Shenzhen, na China.

Olhando para o conceito da Aptoide – uma loja de aplicações para o sistema operativo Android -, podia ser tentador pensar que esta seria uma empresa fácil de abater, uma empresa com um verdadeiro alvo nas costas. Afinal de contas, a Google tem a sua própria loja de aplicações, que vem pré-instalada na esmagadora maioria dos dispositivos Android… e estamos a falar da Google, uma das mais valiosas e mais relevantes empresas do mundo.

A Aptoide mostrou que os utilizadores gostam de ter acesso a alternativas e que valorizam funcionalidades que nem a própria Google contempla na Play Store. Por exemplo, a Aptoide aceita aplicações que na loja da Google não têm espaço, permite que os utilizadores descarreguem apps sem a necessidade de qualquer registo e também possibilita a criação de lojas dentro da sua loja principal – atualmente já são mais de 100 mil.

“Os números do Google Play e a distribuição via esse canal faz sentido para qualquer developer ou publisher. Agora isso não significa que tenham que apostar num cavalo único, não é?”.

A frase é de do cofundador da Aptoide e diretor de operações, Álvaro Pinto. Tudo o que a empresa atingiu até agora tem permitido gerar um negócio bastante saudável. Em entrevista ao Ntech.news, o porta-voz revelou que este ano a empresa espera atingir uma faturação de oito milhões de dólares, o equivalente a 7,3 milhões de euros. Este valor coloca o crescimento da Aptoide para 2017 a rondar os 100%.

Paulo Trezentos Álvaro Pinto

Os dois cofundadores da Aptoide: Paulo Trezentos à esquerda e Álvaro Pinto à direita.

“Este ano [o objetivo é] pelo menos duplicar aquilo que tivemos no ano passado. Triplicámos em 2016, em comparação com 2015, este ano duplicar já é um objetivo ambicioso. Obviamente já começamos a falar de valores mais significativos e o ritmo não pode ser o mesmo, mas é possível até que façamos mais”.

A aposta na componente de publicidade e o crescimento da monetização ligada às receitas das aplicações – a Aptoide fica com uma percentagem das vendas – são os dois factores apontados por Álvaro Pinto como justificação para o forte crescimento que a Aptoide tem sentido em termos de receitas.

Ainda que a empresa não vire a cara a esta vertente de negócio, o COO explicou que o principal foco continua a ser o crescimento da base de utilizadores, pois no fundo esse acaba por ser o grande motor do negócio geral.

“Estamos até focados mais nos utilizadores do que propriamente na componente de receita e volume de negócio. Porquê? Somos uma app store global, somos uma startup que está a concorrer com empresas de uma grande dimensão, portanto a concorrência é agressiva e o nosso principal objetivo é crescer como plataforma do ponto de vista dos utilizadores, mais do que chegar rapidamente a um volume de negócio que seja particularmente significativo”.

Além de concorrer com a Google, a Aptoide também concorre com a Amazon, GetJar, SlideMe, Samsung, TCL Communication e dezenas de outras empresas e lojas de aplicações que existem para o sistema operativo Android. Se considerarmos também o mercado chinês, então é necessário considerar outras 400 lojas de aplicações, segundo Álvaro Pinto.

Apesar do cenário complexo, a Aptoide tem um grande objetivo: chegar a 2020 com a sua aplicação instalada em mil milhões de dispositivos.

O grande objetivo

O objetivo da empresa é ambicioso, disso ninguém duvida. Afinal de contas, não são muitas as empresas que podem dizer que o seu produto está instalado em mil milhões de equipamentos.

“Acreditamos que há aqui um mercado muito significativo de pessoas, de parceiros de negócio, que cada vez mais apostam no Android, porque o Android continua a ter excelentes números, mas também a querer ter alternativas àquilo que hoje tem um monopólio em muitas áreas. Obviamente os parceiros de negócio começam a ver que isso também não é saudável do ponto de vista do mercado, que é preciso alternativas e querem fazer parcerias que sejam mais vantajosas para eles”.

É aqui que a Aptoide espera conseguir crescer. E apesar de o mercado dos smartphones estar estagnado nas suas vendas a nível mundial, ainda há bastantes oportunidades para explorar.

Aptoide
 

“Nós temos estado a apostar em mercados mais estratégicos. A nossa base de utilizadores está muito dispersa pelo mundo, há regiões onde temos mais força, uma delas é a América Latina, onde temos vindo a crescer muitíssimo bem, esse é um dos mercados onde estamos a apostar”, adiantou Álvaro Pinto.

“Mas também na Ásia onde abrimos escritórios e onde vemos um crescimento muito significativo, nomeadamente no sudeste asiático e na Índia. No ano passado crescemos cerca de 230% na Índia, portanto está em ebulição na medida em que há cada vez mais utilizadores que estão a entrar no mercado dos smartphones, é muito importante o fenómeno da passagem dos feature phones para os smartphones, isso está a acontecer de forma massiva”.

Se alargarmos o espectro de dispositivos nos quais a Aptoide pode marcar presença, então o objetivo da empresa parece mais concretizável – ainda que continue a ser extremamente ambicioso.

“Vimos que o Android é uma plataforma também ela aberta e está a ser adotada em diferentes dispositivos e em diferentes casos de utilização. Nós temos trabalhado muito na parte de televisão, onde temos vindo a melhorar. Estamos neste projeto há cerca de dois anos, mas sentimos que agora no Mobile World Congress em Barcelona houve mais procura pela solução de TV, achamos que cada vez mais há televisores que vêm pré-equipados com Android, há mais set-top boxes baseadas em Android e portanto é um mercado que está a crescer”.

Além da área da televisão, a Aptoide também está a desenvolver soluções específicas para o segmento da realidade virtual e também para o sector automóvel. Álvaro Pinto confirmou ao Ntech.news que o objetivo é ter uma ‘Aptoide VR’ e uma ‘Aptoide Auto’, sendo que o primeiro projeto começou agora a chegar ao mercado, enquanto o segundo ainda está em desenvolvimento.

O sector da mobilidade e dos automóveis é sem dúvida uma das áreas tecnológicas do futuro, motivo pelo qual a Aptoide quer marcar a sua pegada. “Estamos a desenvolver a tecnologia com um parceiro chinês, para depois ser adotada pelos fabricantes de automóveis que acharem que a solução para eles é interessante. (…) Estamos a trabalhar para ter uma oferta para várias marcas. Mas ainda não posso dar nomes porque não os tenho e não sei se é algo que vá acontecer este ano. Era ótimo que fosse assim”, salientou.

A Aptoide também não tem dúvidas de que se o tabuleiro de jogo estivesse mais equilibrado, já estaria muito mais perto do seu objetivo. “Tenho a certeza que estaria a partilhar consigo números muito diferentes, se calhar os tais mil milhões podiam ser uma realidade hoje”.

O caso Google

No seu conceito mais elementar, a Aptoide é ela própria uma aplicação para o sistema operativo Android. Mas ao contrário de tantas outras aplicações, não é bem-vinda no Google Play. A Google tem regras que não permitem a existência de outras lojas de aplicações na sua própria loja. Ou seja, há logo aqui à partida uma dificuldade de distribuição.

Mesmo com esta dificuldade ultrapassada através de uma instalação ‘lateral’, o sistema operativo Android tem elementos dissuasores. O utilizador tem de ativar uma opção nas configurações para poder instalar uma app que seja externa ao Google Play e ainda surge um pop-up no ecrã a dizer que “o seu telefone e os seus dados pessoais são mais vulneráveis a ataques de aplicações de origens desconhecidas”.

Aptoide
 

A Google faz isto para proteger os utilizadores. A popularidade do sistema operativo Android é tal que faz com que seja um dos principais alvos de malware no mundo tecnológico. Mas a forma como a Google está a proteger os utilizadores, está ao mesmo tempo a magoar a concorrência – é esta a posição da Aptoide sobre o tema.

A empresa portuguesa foi uma das organizações a apresentar argumentos contra as alegadas práticas anticoncorrenciais da Google junto da Comissão Europeia. “Faz parte da estratégia de comunicação e de marketing da Google dizer ‘ok, atenção que tudo o que estiver fora aqui da nossa alçada é perigoso’. É uma abordagem possível, mas não é verdade”, começou por dizer Álvaro Pinto.

“A investigação continua, estamos, eu diria, numa fase final do processo. Nós não temos acesso ao processo em si, mas porque apresentámos queixa, vamos também tendo contacto com pedidos [de esclarecimentos] da própria Comissão. A perspetiva, até por aquilo que tem vindo a público da Comissão, é eventualmente este ano. Nunca sabemos, eventualmente este ano temos uma decisão da Comissão relativamente a estas práticas”.

“Nós achamos que algumas práticas da Google são prejudiciais para os utilizadores, são prejudiciais para a concorrência europeia, são prejudiciais para as startups europeias e portanto devem ser corrigidas. (…) Esperemos que [a decisão] seja positiva no sentido de reconhecer que há um conjunto de situações que são pouco saudáveis e que devem ser corrigidas, essencialmente isso, mais do que a multa no final”, concluiu Álvaro Pinto.

*Todas as imagens e os seus direitos pertencem à Aptoide


Publicado em:

Startups

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