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Especial: Portugal na rota dos grandes centros tecnológicos

Publicado em 10 Março 2018 por Cristina A. Ferreira | 1148 Visualizações

Nos últimos anos Portugal tem sido escolhido para fixar centros de competências, de serviços ou de inovação por muitas multinacionais, mais de 450, segundo números da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, a AICEP, que destaca os recursos humanos, o sector financeiro, as TIC, a logística e os serviços partilhados, como mote da grande maioria dos projetos.

No início do ano, o primeiro-ministro António Costa usou o palco do Fórum Económico Mundial, em Davos, para anunciar que a Google é um dos nomes que se segue, na lista de multinacionais a escolher o país para fixar um centro de competências regional.

Fonte oficial da empresa, em Portugal, adiantou entretanto que se trata de «um centro de operações de fornecedores em Lisboa, totalmente dedicado a fornecedores terceiros», acrescentando que com isto a empresa vai «instalar num local alguns dos muitos fornecedores que dão apoio às operações da Google».

A polémica sobre o facto de este ser ou não um investimento à procura de mão-de-obra qualificada surgiu logo depois do anúncio e manteve o tema na ordem dos dia. A dúvida foi já desfeita por um responsável ibérico da empresa, garantindo que não se trata de um call center, mas de um centro de inovação para a Europa, Médio Oriente e África. Deve começar a funcionar no final julho, no Lagoas Park em Oeiras, e criará 535 postos de trabalho, em diversas áreas, consoante o tipo de serviços que venha a oferecer.

Nos meses anteriores, Portugal foi referido como destino para o mesmo tipo de investimento de outras marcas de peso, como a Uber ou a Amazon.

A primeira já está a instalar-se e promete criar 250 novos postos de trabalho no país, que podiam ter ido parar ao Cairo, Cracóvia, Limerick ou Paris, cidades que também estavam na corrida para atrair o investimento.

Do novo centro de excelência português, a Uber quer fazer a principal fonte de conhecimento de utilizadores e motoristas em toda a Europa e um pólo de desenvolvimento, teste e lançamento de inovações para a sua aplicação de boleias, revelou a empresa. A estrutura vai também dar suporte ao novo serviço de refeições UberEATS, já a funcionar em Lisboa.

A Amazon pode ser a tecnológica que se segue. O rumor é antigo, mas conta agora com uma confirmação da Câmara Municipal do Porto, relativamente à existência de contactos da empresa criada por Jeff Bezos com a autarquia.

 

Porque estamos a captar investimento estrangeiro?

Mas afinal que atributos soma Portugal para se posicionar de forma competitiva como destino destes investimentos estrangeiros, muitos deles à procura de mão-de-obra qualificada. Os menos otimistas insistem no preço competitivo dos recursos humanos, que numa linguagem menos polida pode traduzir-se pela abundância de mão-de-obra barata no país, comparativamente a outras geografias da região, mas quem coloca os pratos na balança garante que não é só isso. Até porque a nível de preço, há opções mais competitivas.

Francisco Aton, diretor de assuntos institucionais da Google em Portugal e Espanha, disse à imprensa local, à margem de um evento organizado pela empresa no país no início de fevereiro, que a decisão da multinacional foi tomada a partir de uma lista de opções possíveis e que «os custos laborais não foram o motivo para vir para cá. Posso assegurar que havia outras opções com custos laborais mais baixos». A favor de Portugal abonaram, sobretudo, a aposta do país nos sectores tecnológicos, no empreendedorismo e nas startups, sublinhou o responsável.

 

Veja também: Centros TI internacionais: o que fazem, que dimensão têm e como têm crescido

 

Quem escolheu Portugal para investir antes de o empreendedorismo ser tema de todas as conversas, aponta também outras razões e garante que o passar dos anos não as fez desaparecer. «Portugal oferece vantagens únicas para continuar a apostar neste tipo de serviço. A qualidade dos recursos, a facilidade em recrutar profissionais multilingue, em atrair e reter recursos de outros países, a vasta rede de parceiros, ou os custos de infraestrutura, são apenas alguns elementos», destaca a Microsoft.

A dona do Windows arrancou com as primeiras atividades de suporte a clientes empresariais a partir de Portugal em 1994 e hoje mantém no país um centro onde trabalham 250 pessoas e onde investe todos os anos 33 milhões de euros. Já por cá teve também um centro internacional de I&D, mas foi deslocalizado.

 

Veja também: Centro de I&D para linguagem natural da Microsoft foi deslocalizado

 

Voltando ao centro de suporte, ao longo dos últimos 24 anos ganhou competências, recebeu distinções internacionais e transformou-se numa das principais estruturas do género ao nível do grupo e no segundo maior da EMEA (região que agrega Europa, Médio Oriente e África). A equipa também cresceu, sobretudo a partir de 2015, quando saltou de 40 para 140 colaboradores, para começar a dar suporte ao Office 365 e ao Azure.

Miguel Teixeira, CEO da everis, é também responsável pelos oito centros internacionais da consultora em território nacional, onde trabalham 200 pessoas, e junta mais alguns pontos favoráveis à localização Portugal. Destaca «o facto de o clima ser agradável, de sermos um país seguro e de termos uma posição geográfica interessante», aspeto que também é sublinhado por empresas como, a Accenture, a Fujitsu ou a Xerox.

A multinacional norte-americana de equipamentos e serviços de impressão mantém um centro global de serviços em Portugal desde 2011, que começou com sete pessoas e evoluiu até às 260 atuais.

 

«Temos talento, temos as melhores universidades do mundo, somos competitivos, falamos muitas línguas e todos nos dizem que é um prazer trabalhar no nosso país. Portugal está acessível às maiores cidades da Europa em apenas 3 horas, o que também se torna numa vantagem competitiva relevante». Susana Mata, diretora-geral da Accenture Portugal 

 

A empresa classifica Portugal como «uma localização privilegiada para a prestação de serviços de outsourcing em nearshoring (proximidade com os mercados de destino)», como destaca Tiago Santos. Aponta várias razões para isso e reconhece que os níveis salariais competitivos continuam a ser uma delas, opinião partilhada pela IBM ou pela GFI, com o mesmo tipo de investimentos no país. No caso da GFI, um investimento que tem permitido não apenas o crescimento orgânico da operação local, mas que também passa pelo crescimento por aquisição. O grupo francês comprou a ROFF e com a operação reforçou significativamente a oferta de serviços globais, assegurada a partir de Portugal.

 

Recursos humanos, a oportunidade e a ameaça

Como a facilidade em falar línguas, onde ainda assim se encontram exceções, a disponibilidade e qualidade de recursos humanos com formação na área das TIC são aspetos apontados a favor de Portugal, por todas as multinacionais contactadas neste especial. No entanto, não é novidade, e é assumido por várias empresas, que esta mais-valia está a transformar-se num desafio ao crescimento dos projetos.

O problema, no entanto, ultrapassa a realidade nacional e a dimensão está quantificada. Números apurados pela Comissão Europeia antecipam que em 2020 fiquem por preencher 825 mil vagas de emprego nas TIC, em toda a UE. As dificuldades que já se sentem hoje verificam-se sobretudo nas áreas mais inovadoras, onde a tecnologia avança mais depressa que a revisão dos currículos.

«Olhando à mudança das organizações para o digital, há a necessidade de ganhar novas competências e requalificar rapidamente, para apoiar os clientes nos temas da cloud, Internet das Coisas, Realidade Aumentada, Inteligência Artificial, Robótica e Cibersegurança», destaca Susana Soares, diretora de marketing da Fujitsu. A responsável admite mesmo que acompanhar o crescimento atual, neste contexto, se tem revelado um dos grandes desafios na gestão da operação local.

«Muito embora Portugal reúna condições únicas [para atrair estes investimentos], há ainda um grande desafio no campo da qualificação e um certo desajuste de competências», precisa Sérgio Pereira. O diretor-geral da Softinsa, empresa do grupo IBM responsável pela gestão dos centros de serviços da fabricante em Portugal, defende que a falta de candidaturas nas universidades portuguesas, em áreas como a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM) é um dos principais problemas a resolver. As estatísticas confirmam e mostram que o caminho é longo.

 

Emigração fez sair do país quadros qualificados

No final de 2016, os números do Eurostat indicavam que em Portugal trabalhavam na área das TIC 108,8 mil pessoas, cerca de 2,4% da população ativa. A percentagem representava menos de metade do valor apurado para o Reino Unido, que liderava a tabela. No total, há pouco mais de um ano, 8,2 milhões de europeus trabalhavam nestas áreas, um número globalmente baixo para fazer face às necessidades do mercado. Mas, para a maior dificuldade em encontrar recursos humanos qualificados que algumas empresas começam a identificar, apontam-se ainda outras razões.

Pesam «o crescimento económico, o maior investimento das empresas, mas também uma maior propensão dos nossos quadros para trabalhar noutros países, emigrando», destaca António Ferreira, diretor-geral da Claranet em Portugal, grupo que soma três centros de suporte no país. O mais recente, na área da cibersegurança, acaba de ser inaugurado e pode transformar-se rapidamente no segundo investimento deste género, feito pelo grupo britânico em Portugal, para fornecer serviços em vários países .

 

Veja também: Claranet pode voltar a investir no país para criar novo centro de serviços internacional 

 

Os dados mais recentes das Nações Unidas indicam que há 2,2 milhões de portugueses emigrados e isso nota-se na disponibilidade de profissionais qualificados, admite também Maria da Luz Penedos, responsável pelo centro global de serviços da Altran em Portugal, que emprega 700 pessoas e que é uma das três estruturas deste género criadas pelo grupo francês em todo o mundo.

Os dois responsáveis partilham opinião em relação ao problema e também estão de acordo no que se refere às soluções Acreditam que a resposta deve ser política e de visão estratégica. Defendem que os esforços de atração de investimento estrangeiro devem ter em conta a necessidade de cativar não só empresas, mas também quem nelas trabalhe, sugere António Ferreira. Deve ainda passar pela desburocratização dos processos de atribuição de visto a residentes fora da UE, aumentando a oferta de engenheiros em áreas específicas, acrescenta Maria da Luz Penedos.

 

Empresas põem mãos à obra para encontrar respostas

Enquanto outras medidas não surgem, as empresas avançam com diferentes estratégias para colmatar lacunas. A Altran garante que as suas políticas de recrutamento já estão orientadas para captar o interesse dos profissionais que saíram de Portugal. Além disso, a multinacional tem procurado aproximar-se das universidades na área dos seus centros de serviços e levado a cabo Academias, que facilitam a especialização dos seus engenheiros e a preparação para projetos concretos.

A everis usa a mesma receita, mas orienta-a sobretudo para capacitar profissionais com outras formações de base, a trabalhar com várias linguagens de programação, explica Miguel Teixeira, CEO da empresa.

 

«A qualidade do capital humano disponível, associada à competitividade, no que respeita a custos/investimento, fazem de Portugal cada vez mais um caso de sucesso, seguido por diversas multinacionais», Tiago Santos, Xerox

 

Outras empresas optam por se envolverem de forma mais direta na criação de programas de formação nas universidades, como fizeram a IBM ou a SAP. A primeira lançou uma pós-graduação em Business Intelligence com o Instituto Politécnico de Leiria, com quem tem promovido outras iniciativas, que agora pretende replicar com o Politécnico de Viseu.

Sérgio Pereira garante que Softinsa e IBM, «continuam ativamente a desenvolver oportunidades de negócio que no futuro se possam traduzir no alargamento dos atuais centros, ou na eventual abertura de novos centros nearshore em Portugal». Acrescenta ainda que «o fator crítico de sucesso para que tal aconteça é a disponibilidade de talento e recursos de Tecnologias de Informação qualificados, pelo que a colaboração com as Instituições de Ensino Superior é fundamental».

No caso da SAP, a estratégia passou por assinar um protocolo com a NOVA IMS, para a pós-graduação de Digital Enterprise Management. Rita Feio, diretora dos centros de serviços da multinacional alemã na Europa, explica que a esta iniciativa a empresa junta o apoio a pós-graduações e o investimento em programas próprios de qualificação de quadros. No ano passado, a SAP avançou também com a criação de um programa estágios profissionais de seis meses.

Neste primeiro ano acolheu 30 estagiários e acabou por integrar a maior parte. Estreou ainda uma iniciativa de estágios de 30 dias, para alunos de engenharia e informática de gestão, que apresenta como uma medida ativa para aproximar o mundo empresarial do universitário e um incentivo à criação de mais competências digitais entre os jovens universitários.

O centro internacional de serviços SAP em Portugal foi lançado em 2012 e os jovens em início de carreira representam 70% da equipa atual, que tem crescido rapidamente, principalmente a partir de 2016, quando a empresa lançou a nova geração do ERP (S/4Hana) e um conjunto de novas soluções nas áreas de cloud, IoT e Data Science.

 

Há margem para tornar a marca Portugal mais forte e competitiva

Com dois centros de serviços em Portugal e 650 colaboradores distribuídos por Lisboa e Braga, a Accenture também centra na dificuldade em encontrar recursos humanos qualificados na área das TIC o maior desafio à gestão da operação local, reconhece Susana Mata, diretora da consultora em Portugal e responsável pelo Portugal Advanced Technology Center.

«Neste momento há uma enorme lacuna de profissionais desta área no mercado europeu e temos que estar permanentemente a trabalhar em formas diferentes de atrair os melhores talentos e de lhes dar formação contínua para que se mantenham relevantes». Ainda assim, os planos da multinacional são de expansão e a consultora pretende duplicar a capacidade do centro de Braga, inaugurado em junho do ano passado com 100 colaboradores, já no curto prazo.

As empresas pedem novas políticas de educação que ajudem a reforçar a oferta de quadros, nas áreas onde a procura de recursos qualificados tende a aumentar, mas também reclamam por medidas que facilitem a requalificação para as TIC. E defendem que o país não deve ter medo de fazer comparações, pelo contrário.

 

Veja também: Gestores partilham ideias para melhorar competitividade local na atração de investimento

 

A liderar uma equipa de 900 pessoas, que a partir de Portugal alimenta a estrutura de serviços partilhados da Siemens, Alf Franzoni, faz elogios ao sistema educativo português e sublinha a boa reputação internacional do país, mas sugere que as políticas desenhadas para reforçar essa posição sejam pensadas de olhos postos na concorrência. «É importante que Portugal conheça o que os outros países estão a fazer, especialmente na parte oriental da Europa. Acredito que será essencial fazer benchmark de alguns dos “pacotes” que outros países estão a oferecer ao mercado e aprender com eles», defende o responsável.

Trabalhar mais a fundo a marca Portugal e os argumentos que a tornam atraente aos olhos das multinacionais que cá podem investir é também uma sugestão deixada por vários responsáveis. Nalguns casos, com ideias bastante concretas de elementos que podem ajudar a fazer esse caminho.

 

«Uma simplificação nos processos administrativos e na legislação fiscal e laboral iria claramente facilitar e acelerar a concretização de novos investimentos no nosso país», Rita Feio, diretora dos centros de serviços SAP na Europa

 

Microsoft e a Claranet fazem ainda notar a importância de existirem benefícios fiscais que incentivem este tipo de investimentos e a criação de emprego especializado, enquanto a IBM sublinha que os custos associados aos centros de média dimensão (200 – 400 colaboradores) ainda têm margem para ser otimizados. Seja no que se refere à formação dos colaboradores, seja relativamente aos preços dos imóveis (rendas e infraestruturas), a multinacional defende que o país pode posicionar-se melhor face à concorrência da Europa Central.

Uma nota positiva é o facto de a maior parte das empresas serem unânimes em reconhecer que Portugal já garante um conjunto de argumentos intrínsecos, também eles hoje determinantes na decisão de investimento das empresas e na escolha da geografia para trabalhar por muitos jovens, como a cultura, os valores ou a qualidade de vida que o país é capaz de proporcionar.

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