Partilhe nas Redes Sociais

PUB

GMV: Innovating solutions in Cybersecurity

«Na informática deviam existir agentes do tipo Jorge Mendes»

Publicado em 14 Junho 2017 | 3028 Visualizações

Miguel Mira da Silva, professor de sistemas de informação no departamento de engenharia informática do Instituto Superior Técnico, investigador do INESC-ID e diretor do INOV, acredita que há muito a mudar para adaptar o ensino às novas realidades do mercado. Fala em passos que podem ser dados já e em mudanças mais estruturais, que considera mais difíceis de tornar realidade.

Ntech.news – Como vê o mercado de recrutamento nas TI em Portugal?

Miguel Mira da Silva – Os clientes contratam as empresas de recrutamento muitas vezes apenas para «roubar» pessoas à concorrência, pois contratam diretamente quando existem candidatos disponíveis. Por isso são ações pontuais, de pouco valor acrescentado.
Os verdadeiros talentos não são valorizados e muito menos desenvolvidos, por exemplo na informática não existem «agentes» como existe no futebol ou na música. Na informática deviam existir agentes do tipo «Jorge Mendes», que fizessem a gestão da carreira profissional dos melhores talentos.

-São conhecidas as falhas no equilíbrio entre a oferta e a procura. Quais são as mais importantes na sua opinião e as mais urgentes de resolver?

A mais importante é sem dúvida alinhar os cursos com as necessidades do mercado. Não podemos continuar a formar especialistas em áreas onde as empresas não estão a contratar. Um curso que forme pessoas para o desemprego não é apenas um desperdício de dinheiro, está também a enganar os jovens e os seus pais.
Por exemplo, ninguém acha estranho não existir um único curso superior de vendas quando esta área precisa de tantos profissionais e está previsto a procura aumentar ainda mais?

-Na sua opinião as universidades não estão a conseguir dar resposta aos novos desafios?

As universidades não podem aumentar o número de alunos nas licenciaturas, por isso a única solução é oferecer mestrados e outros cursos de pós-graduação. Por exemplo, no Técnico temos o POSI para
executivos, o mestrado online MISE, e agora o novo SISE – todos para pessoas formadas em qualquer área!

-Quais são hoje os perfis TI mais procurados no mercado?

Programador, pois as necessidades de desenvolvimento de software continuam a aumentar exponencialmente, ao mesmo tempo que a produtividade dos programadores tem aumentado muito menos… Mas também existe muita procura em áreas especificas, como a segurança informática, análise de dados, gestão de projetos, etc.

-O que está a falhar na canalização de alunos para as áreas com maior procura?

Muita coisa, a começar pelo ensino secundário que está desatualizado. Por exemplo, faz algum sentido ensinar com aulas, livros, papel e caneta em 2017, quando todos os jovens estão completamente “viciados” em tecnologia? Os jovens quando entram na escola andam 40 anos para
trás no tempo… temos urgentemente de atualizar o ensino secundário!

-Quem são os responsáveis?

Todos nós porque queremos manter o status quo … todos os atores do sistema são parcialmente responsáveis. Por exemplo, o foco nas aulas e nos livros quando existem cursos online
(gratuitos ou quase) sobre todas as matérias.
Por outro lado, a prova que é possível inovar no ensino é que recentemente atualizámos a licenciatura e também o mestrado em informática e ainda lançámos novos cursos de pós-graduação. E estamos a adotar novos métodos pedagógicos, a lançar pequenos cursos online e brevemente novos cursos de pós-graduação focados na reconversão profissional.

-O que devia mudar para tornar o sistema mais eficiente?

O mais urgente seria (porque não vai ser) alinhar os cursos universitários com as necessidades das empresas, em particular não devíamos criar incentivos para formar especialistas em áreas onde não
existem empregos.

– Do lado das empresas, acredita que estão a ser seguidas as estratégias corretas para reter talento nas áreas de maior procura?

É difícil competir contra as startups, os empregos no estrangeiro e cada vez mais com empresas em Portugal, que trabalham para o estrangeiro e por isso podem pagar salários acima da média. Por isso
as empresas portuguesas terão mesmo de começar a exportar serviços de informática!

-Há quem fale já de um mercado de trabalho nas Ti cada vez mais “candidate driven”. Concorda?

Sim, quando a procura de informáticos é maior que a oferta, obviamente os informáticos mandam nas empresas.

-Na sua opinião, a escassez de profissionais de TI pode por em causa a prática de inovação?

Sim, mas é muito pior que isso! A falta de informáticos impede a criação de valor, dificulta o crescimento da economia, prejudica a receita dos impostos, e por isso vai colocar em causa a segurança social. Temos urgentemente de parar de formar pessoas para o desemprego e começar a formar 10 vezes mais informáticos!
*Esta entrevista integra o Especial Talento


Publicado em:

Na Primeira Pessoa

Partilhe nas Redes Sociais

Artigos Relacionados