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O ensino na era do BYOD

Publicado em 2 Outubro 2015 | 1411 Visualizações

Há uns anos, o Governo envolveu-se na digitalização do ensino com iniciativas como o Magalhães e o e-escola, no entanto, foram projectos que acabaram por se perder. Muitos apontaram a falta de envolvimento do Estado nesta digitalização do ensino e na preparação do sistema para receber alunos com perfil tecnológico, mas Manuel Menezes de Sequeira, professor e coordenador pedagógico dos ciclos de estudos em tecnologias daUniversidade Europeia, diz que não. Segundo ele, a situação talvez tivesse outro desfecho se as escolas e os professores tivessem maior autonomia para fazerem as suas próprias experiências educativas.

 

Mas desde o ano de 2008 o mundo digital mudou radicalmente e continuará a mudar ainda mais nos próximos anos. «Os dispositivos móveis estão a generalizar-se e a ganhar capacidades que os tornam fortes concorrentes dos computadores portáteis, com os quais, aliás, cada vez mais se confundem», sustenta o docente. Neste momento, Manuel Menezes de Sequeira garante que a integração dos dispositivos móveis dos alunos na sala de aula, e não a sua proibição, pode ser um bom caminho para digitalizar ainda mais o ensino e para focar essa digitalização no aluno, como se tentou fazer com o Magalhães. «Se as escolas e os professores forem livres para realizarem as suas próprias experiências, e se estimular a partilha do conhecimento criado nesse processo, conseguiremos, creio, uma adopção mais rápida e profícua das novas tecnologia do que abordando o problema de forma centralizada», recomenda o especialista.

 

De acordo com este especialista, os dispositivos móveis são úteis para aceder aos recursos disponibilizados pela própria instituição de ensino. Mas o manancial de recursos externos à instituição é aquilo que mais interessa, em última análise. É o acesso a esses recursos pelos alunos, enquadrado pelos professores, na sala de aula, que tem mais potencial para fazer a diferença, garante Manuel Menezes de Sequeira.

Mas será que as instituições de ensino já perceberam como podem explorar todo o potencial do digital em prol dos seus processos educativos? O coordenador pedagógico dos ciclos de estudos em tecnologias da Universidade Europeia considera que há muitas formas de o fazerem.

 

«Julgo que o principal é mesmo que os professores e as escolas sejam livres de experimentar, que eliminem rapidamente as restrições à utilização em aula de tecnologia pelos, e dos próprios, alunos e que continuem a partilhar as suas experiências», sustenta o docente. Da mesma forma assinala como um factor determinante a colaboração das escolas para criarem alternativas aos manuais escolares clássicos, fazendo uma «saudável concorrência às editoras».

Numa altura em que são raros os professores que não tiram partido das tecnologias digitais para organizarem o seu ensino, Manuel Menezes de Sequeira aponta que ainda há bastante resistência à utilização das tecnologias, em aula, pelos alunos. «A vida de professor não é fácil, já que muitas vezes têm cargas lectivas muito pesadas e demasiados alunos a seu cargo, o que não lhes deixa margem para inovar», aponta o docente ao mesmo tempo que sinaliza múltiplos desafios que se apresentam aos educadores.

 

Segundo este responsável, os maiores desafios passam pela utilização da tecnologia, pelos alunos, em sala de aula e também pela multiplicação de experiências como os MOOC (Massive Open Online Course). «Não acredito que o papel do professor se vá tornar redundante, mas seguramente terá de se alterar.»

 

A nível do ensino superior, Manuel Menezes de Sequeira considera que a predominância do digital é muito evidente. «Para quê insistir em aulas expositivas se os alunos, fora da aula, têm acesso a recursos criados especificamente para aprendizagem através da Web pelos melhores professores, das melhores universidades do mundo, com o apoio de excelentes equipas de criação de conteúdos didácticos», questiona o professor. De acordo com este especialista, este desafio tem tido como resposta a adopção do modelo sala de aula invertida (flipped classroom).

 

O acesso à tecnologia é cada vez mais permanente e ubíquo, pelo que a tecnologia começa a confundir-se connosco, em alguns casos e a longo prazo, quando conseguirmos acesso à Web através de um simples pensamento, sem intermediação de um dispositivo que temos de manipular, Manuel Menezes de Sequeira pergunta: «Qual será o papel da memória na aprendizagem? Quem deveremos então educar e avaliar: o humano, despido da sua tecnologia, ou o humano estendido por ela?»


Publicado em:

Talento

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