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Os gestores ainda estão receosos em relação à cloud

Publicado em 11 Outubro 2015 | 1207 Visualizações

A nuvem está bem localizada e estruturalmente sustentada para virar a página do mercado tecnológico e ilustrar uma nova era de histórias de sucesso empresarial. Mas há personagens que não estão preparadas para representar neste cenário. As questões emocionais estão, no entender de Frank Wammes, CTO Application Services da Capgemini para a Europa, a colocar o desenvolvimento das histórias em stand by e a toldar a capacidade de acção dos gestores.

 

Ntech.news – Como vê a posição das empresas portuguesas que estiveram presentes no evento da ACEPI, relativamente à cloud?

Frank Wammes – O que realmente me preocupou foi o facto de eles se mostrarem demasiado optimistas. Fiquei espantado porque, numa Europa onde a adopção da cloud está agora a começar a avançar, há gestores portugueses a afirmar que aqui a nuvem já chegou e que todos estão familiarizados com ela. Não há porquês. Na Europa esta não é a realidade que eu encontro. O facto de a cloud vir a ser um factor dominante está assumido. A questão de ser híbrida também. No entanto, as empresas portuguesas passam uma ideia de que Portugal esta na linha da frente de adopção da cloud e eu não percebi se isso é realmente verdade ou se eles estão a ser demasiado positivos numa perspectiva de vendas. Continuo a encontrar clientes com muitas questões, especialmente sobre compliance e o curioso é que a maior parte destas questões são emocionais não factuais, mas eles não referiram isso. Foram muito optimistas.

 

Qual é então a realidade que encontra noutros países e que contraria o optimismo português?

Há ainda alguma confusão e medo dos riscos. O valor da cloud tem de ser o melhor para mitigar o risco. Onde estão os meus dados? Quem pode ter acesso aos meus dados? Quem é responsável pelos meus dados? São questões emocionais que cegam os gestores na hora de avançar.

 

Quais são, na sua opinião, os pontos com que se deve realmente preocupar o gestor?

Eles têm de ser cuidadosos, não devem questionar a cloud unicamente do ponto de vista da segurança, mas de outras perspectivas. Saber se há open standards, se algo corre mal como se recuperam os dados, conhecer os níveis de serviço dos vários fornecedores, ou resolver as questões de integração. Este último ponto pareceu-me ser tratado com facilidade pelos oradores nacionais. O certo é que as empresas devem ter consciência das suas capacidades e saber se as têm dentro de casa ou se terão de recorrer a um fornecedor externo. A complexidade da cloud precisa de muita atenção nesta parte da arquitectura. As empresas têm muitas peças de arquitectura, mas não têm a integração necessária entre elas para sustentar um ambiente cloud. Este tipo de capacidades são, na minha opinião, o maior risco que as empresas enfrentam actualmente na sua viagem para a cloud.

 

Que modelo de cloud acha que vai vingar, ou impor-se, no mercado?

Depende da companhia. Eu penso que a cloud híbrida estará para as grandes empresas. Mover o ERP completamente para a cloud não irá acontecer. O primeiro passo será o SaaS. Nesta fase emergente, estas empresas optam por mover a segunda camada aplicacional completamente para a cloud. Por outro lado, as PME e as startups de rápido crescimento irão optar por um modelo full cloud e de forma mais agressiva.

 

Em que pontos os fornecedores cloud se podem diferenciar?

Há diferenciação, mas também confusão. Os players movem-se entre a infra-estrutura, PaaS, e IaaS, procurando chegar a todos os lados. Mas na minha opinião as diferenças estão na origem de cada um. 

 

Eles percebem que fechar os clientes é mau negócio?

O jogo open source já começou, mas há players que têm plataformas de migração que servirão para atrair os clientes de outros. No entanto, os clientes têm de perceber que se querem crescer rápido a preocupação não deve ser onde estão presos, mas de que forma podem sustentar o crescimento da sua organização. O lock in já foi uma questão dominante, mas neste momento as questões são: como quero crescer? E a que velocidade?

 

Que factores determinam uma história de sucesso na viagem para a cloud?

Planeamento. Nenhuma empresa/gestor se torna digital master (pioneiro na cloud) à partida. Vemos que há um interesse crescente na cloud e em querer fazer qualquer coisa nesta área. As empresas que serão bem sucedidas serão as que primeiro identificarem onde estão as vantagens. Numa altura em que muitas empresas enfrentam um estrangulamento de custos com as antigas infra-estruturas, por vezes a melhor forma de avançar é virtualizar e pôr a infra-estrutura na cloud e desta forma libertar dinheiro e recursos para pensar na cloud numa perspectiva mais avançada. Os gestores que pensarem em como ganhar dinheiro com as iniciativas cloud, na forma mais fácil de adaptar a organização à cloud de ponto de vista do utilizador e do Departamento de TI, serão os que irão beneficiar mais. Não os que entendam isto como uma moda ou obrigação.

 

A cloud é a fundação para um novo modelo de governance digital?

Sim. O ponto de partida deverá ser os benefícios da cloud. Não vejo as empresas a investir mais na on-premise. A cloud será o principal veículo de delivery de TI em todos os aspectos. Será híbrida e terá nos wearables e na Internet of Things os grandes drivers. Mas as questões emocionais serão sempre o principal travão.

 

 

É preciso preparar o sistema educativo

Frank Wammes, CTO Application Services da Capgemini para a Europa, considera que o sistema educativo ainda não está a acompanhar este mundo cloud que promete trazer empregos diferentes. «Os professores não estão preparados. É preciso prepará-los para lidarem com esta nova era tecnológica. Programar será o novo trabalho manual do futuro», recomenda o responsável.


Publicado em:

Na Primeira Pessoa

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