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Ler num ecrã ou em papel: as diferenças que definem o grau da nossa humanidade

Rodrigo Oliveira – CEO & Founder Zyrgon Network Group

Publicado em 23 Setembro 2021 | 101 Visualizações

Hoje começo pelo meio.  Não quero esperar até meados do artigo para partilhar consigo a preciosa informação que descobri sobre o nosso cérebro. Sabia que, na sua génese, a nossa massa cinzenta não estava capacitada para a leitura? Pois é, há muitos mil anos atrás (cerca de seis mil), os neurónios da área cerebral, que hoje associamos à forma visual das palavras, respondiam apenas à atividade de estímulos visuais. Ou seja, este superpoder que é ler resulta de um sofisticado processo evolutivo que apenas aconteceu graças à plasticidade do nosso cérebro e ao milagroso instinto humano de aprender e ensinar. O neurocientista francês, Stanislas Dehaene, nomeia esta transição de funções de “reciclagem”, determinando que o nosso circuito cerebral foi reciclado para a nova ação de reconhecer letras e palavras. Ler não é inato em nós, tal como é a visão e a linguagem oral, fomos ensinados a ler. Isto é só fascinante. Para contrabalançar este início, trago um alerta: estamos a perder esta capacidade conquistada e desenvolvida ao longo de seis milénios com a leitura digital intensiva. Sobretudo as gerações mais novas que desconhecem a experiência de viver num mundo analógico. A forma como o cérebro processa a leitura de um livro e a leitura através de um ecrã varia e muito. Arrisco até a dizer que a leitura em diferentes ecrãs nos está a roubar o que de mais humano há em nós. Mas há formas de travar este ponto sem retorno e passa muito pela reeducação dos nossos hábitos digitais.

Ler um livro impresso ou ler um livro no ecrã. É assim tão diferente?

É. Na verdade, é mesmo diferente o processar do nosso cérebro perante a leitura analógica ou a leitura digital. Ainda existem poucos estudos sobre o tema, até porque vivemos o início do furacão Internet e ainda estamos a distinguir os efeitos de abraçarmos toda esta avalanche digital sem freio e distanciamento crítico, mas os investigadores que exploram o assunto concluem em uníssono: o cérebro aciona mais áreas cognitivas durante a leitura de um texto impresso. Percebamos quais são elas com o exemplo de uma experiência realizada, em 2009, pela empresa de pesquisa de Marketing, Millward Brown. Neste estudo, os participantes visualizaram anúncios publicitários num ecrã e em materiais impressos, durante uma ressonância magnética. Através de uma avançada técnica de neuroimagem, concluiu-se que, perante a leitura analógica, houve mais atividade no córtex pré-frontal medial e no córtex cingulado, ambos envolvidos no processamento de emoções, e mais atividade no córtex parietal, que nos ajuda a processar as pistas visuais e espaciais. Portanto, quando saboreamos a leitura de um bom livro não estamos apenas a alimentar a alma, mas também a estimular a nossa sagacidade neurológica.

O leitor, certamente, já se apercebeu do que acontece quando acede à informação do mundo através de ecrãs. É um passar de olhos, ler na diagonal, captar as ideias principais para rapidamente acabar a leitura pois tem um sem números de estímulos à espera de resposta: mensagens de Facebook, WhatsApp ou de Instagram, outras notícias relacionadas, várias janelas do browser abertas, um podcast por retomar ou mesmo sair na paragem seguinte, no caso de estar a ler através do seu smartphone em transportes públicos. Ou seja, pouco tempo e um raro aprofundar da leitura. A instantaneidade do acesso à informação e a ilimitada fonte informativa que é a Internet pode-nos até dar a falsa confiança de que estamos a acumular conhecimento, como nos alerta a investigadora estado-unidense, Lauren Singer Trakhman, que estuda a nossa compreensão de leitura a partir da Universidade de Maryland, mas a verdade é que está a afetar profundamente o nosso processar cognitivo. A leitura superficial que fazemos através dos vários ecrãs, que fazem parte do nosso quotidiano, afeta perigosamente a nossa capacidade de interpretar textos e argumentos, a tal que temos desenvolvido e sofisticado ao longo de milhares de anos.

Más consequências e boas soluções

Porque é que ativamos mais áreas neurológicas quando lemos textos em formatos analógicos? Como já referi, o fator distração pesa muito na compreensão de determinado conteúdo. Ao estarmos perante um texto que não se move, não emite sons de alerta e não tem várias seduções à distância de um clique, a nossa imersão é total. Ler um livro ou jornal, num cadeirão ao ar livre, por exemplo, é como uma meditação. A relação sensorial com o objeto físico é algo que também tem um grande impacto na forma como interpretamos o que estamos a ler. Nada substitui a experiência de pegar um livro e sentir-lhe o cheiro, folhear as suas páginas, para a frente e para trás, e “mastigar” cada palavra através da visão. Neurologicamente, também se passam coisas muito curiosas: quando lemos um texto impresso, o cérebro constrói um mapa cognitivo através de marcadores visuais e espaciais – tal palavra está no canto superior direito da página. Esta referência visual faz com que o cérebro poupe a memória e se concentre mais na densidade temática do conteúdo, o que permite ao leitor estar mais atento aos detalhes e às delícias dos subtextos.

Num ecrã, não existem estas referências visuais fixas, pois o texto depende da dinâmica do scroll. Resultado: processa-se superficialmente a ideia principal, captando, na maioria das vezes, apenas “as gordas”, o que se pode tornar desastroso para a nossa construção individual e social. Esta superficialidade retalha-nos a capacidade crítica e limita-nos a abertura para receber vários pontos de vista, resultando em pouca empatia e muita intolerância. Além disso, facilita o acatamento das chamadas fake news e uma maior tendência para a demagogia. É uma das respostas possíveis para esta atmosfera global de polarização de ideias que sentimos atualmente na nossa sociedade.

Estamos em alerta vermelho, sobretudo as nossas crianças e jovens que já nasceram virados para um ecrã. Os hábitos digitais estão a gerar um retrocesso nas nossas capacidades cognitivas e isto só pode ser trágico. Esta é a minha versão pessimista. A otimista diz que ainda estamos a tempo de encontrarmos soluções que nos equilibrem entre o mundo digital e o analógico. Mas esse equilíbrio não se encontra trauteando o verso “ó tempo volta para trás”. Estamos para sempre ligados à tecnologia digital e, por isso, temos de saber como nos podemos proteger nesta relação vitalícia. Eu proponho lucidez e autodisciplina para gerirmos o nosso tempo nos dispositivos digitais assim como para evitar o multitasking. Protejamos também os tempos livres das nossas crianças para que não sejam passados frente a ecrãs. Cultivemos o seu direito ao ócio, pois é nesse tempo que experienciam novas brincadeiras e se descobrem seres sociais. E isto também vale para os adultos.


Publicado em:

Opinião

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