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Como a tecnologia low-code está a revolucionar o licenciamento musical

Publicado em 18 Fevereiro 2025 por Luísa Dâmaso | 1439 Visualizações

A digitalização do licenciamento musical em Portugal deu um passo decisivo com a nova plataforma da Audiogest, desenvolvida em parceria com a Glintt Next. David Castro, responsável pela área de low-code na Glintt Global, e Sílvia Sá, Head of Licensing Service da Audiogest, explicam como esta solução inovadora simplificou processos, aumentou a eficiência e garantiu maior transparência na gestão de direitos autorais. O impacto foi imediato, com os responsáveis a darem conta de tempos de resposta reduzidos, maior autonomia para os utilizadores, resultados que foram reconhecidos no Portugal Digital Award 2024. Nesta entrevista, revelam-se os desafios e os benefícios da solução, bem como os próximos passos para levar esta transformação digital a novos patamares.

O que torna esta solução tecnológica pioneira?

David Castro – A solução desenvolvida para a Audiogest marca um ponto de viragem na digitalização da indústria musical em Portugal. Pela primeira vez, o processo de licenciamento foi centralizado numa plataforma totalmente digital, eliminando burocracias, reduzindo tempos de resposta e garantindo um acesso mais simples e eficiente para os utilizadores. Esta transformação não só modernizou a gestão de direitos autorais, como também trouxe um novo nível de transparência e automação ao setor. A inovação desta solução reside na combinação de tecnologia low-code, automação inteligente e integração de dados em tempo real, permitindo uma abordagem flexível e escalável. Além disso, a plataforma evoluiu rapidamente para além do licenciamento inicial, abrangendo ferramentas para equipas comerciais, processos de cobrança e integração com Business Intelligence. Esta abordagem transversal faz desta solução um modelo pioneiro que pode ser replicado noutras áreas culturais e industriais. O reconhecimento com o Portugal Digital Award 2024 – Best Cultural and Media Project valida a sua inovação e impacto.

Como surge esta parceria com a Audiogest?

 D.C. – A parceria entre a Glintt Next e a Audiogest nasceu da necessidade de modernizar e otimizar os processos de licenciamento, garantindo crescimento, eficiência e transparência. O grande desafio estava na digitalização de um sistema que servisse tanto grandes grupos empresariais como pequenos negócios, exigindo uma solução acessível, intuitiva e robusta.

Os principais requisitos tecnológicos incluíam: • Usabilidade e simplicidade: uma interface intuitiva que facilitasse o licenciamento, reduzindo a complexidade do processo. • Automação de processos: eliminação de tarefas manuais para aumentar a eficiência e reduzir erros. • Integração com sistemas internos e externos: garantindo coerência nos dados e facilitando a análise de informação. • Evolução contínua: uma plataforma flexível que permitisse adaptações rápidas conforme as necessidades do setor. Desde o início, houve uma colaboração próxima entre as equipas de negócio e tecnologia, assegurando que a solução fosse desenvolvida não apenas com tecnologia avançada, mas com um profundo entendimento das necessidades do setor.

O uso de tecnologia low-code, através da plataforma OutSystems, foi essencial para garantir uma execução rápida, eficiente e adaptável.

David Castro

Gestão mais fácil

Quais foram os principais desafios que a Audiogest enfrentava antes da implementação desta plataforma digital?

Sílvia Sá – A atividade de licenciamento e cobrança de direitos exige um enorme foco na eficiência operacional do processo. Com a expansão do universo de licenciamentos para setores onde a música é utilizada de forma acessória e pontual (eventos), as tarifas são naturalmente mais baixas quando comparadas com as aplicadas a atividades onde o uso de música tem carácter essencial, aumentando o desafio de controlo dos custos. O volume de dados envolvido na prospeção, identificação das utilizações, contratação e emissão de licenças é significativo e, aliado à constante dinâmica dos setores de atividade, exige uma capacidade de resposta rápida e eficaz.  Estudos científicos sobre o impacto da música no consumidor comprovam, de forma crescente, o seu contributo positivo para os negócios, seja na criação de ambientes, na satisfação do cliente ou até na forma como influencia o seu comportamento. O nosso objetivo é que os utilizadores se concentrem nestas vantagens e na forma como a música pode impulsionar as suas atividades, sem que o licenciamento represente um obstáculo. Queremos tornar este processo mais simples, transparente e útil, para que o foco dos clientes esteja no que realmente importa: a experiência e o valor gerado pela música.

Que impacto específico esta solução teve na vossa operação, nomeadamente no licenciamento de música e na relação com os clientes?

S.S – A automatização e agilidade no processo incutida pelo portal de licenciamento permitiu o crescimento significativo do número de licenças emitidas e do correspondente montante global de direitos cobrados.  O Portal de Licenciamento revolucionou a experiência do utilizador, permitindo acesso imediato a informações sobre preços e condições de utilização de música. Agora, qualquer utilizador pode realizar simulações, prever custos e proceder autonomamente à contratação da licença, sem ter de realizar pedidos de informação e depender de um horário de funcionamento, que muitas vezes pode não ser compatível com o da sua atividade. Com uma base diversificada de utilizadores, desde microempresas a grandes grupos empresariais, foi essencial desenvolver uma interface intuitiva que facilitasse o cálculo das tarifas e a gestão periódica do licenciamento. Além disso, a criação de uma área de cliente digital permite hoje o acesso imediato a documentos e licenças após o pagamento, reduzindo o tempo de espera e aumentando a eficiência operacional. Este acesso, que permanecesse enquanto o licenciamento se encontrar ativo permite ainda a consulta em qualquer altura de forma a dar resposta às necessidades de alteração do licenciamento por parte do utilizador sempre existem alterações nas condições de utilização de música.

Plataforma Outsystems

Quais os principais avanços que a área de low-code trouxe para a execução do projeto?

D.C – O uso de tecnologia low-code, através da plataforma OutSystems, foi essencial para garantir uma execução rápida, eficiente e adaptável. Permitiu construir e lançar uma versão funcional da plataforma em poucos meses, garantindo que os primeiros resultados fossem sentidos rapidamente. Com low-code, conseguimos aplicar a filosofia “errar rápido e corrigir rápido”, ajustando funcionalidades com base no feedback dos utilizadores sem comprometer a estabilidade da solução.  Da mesma forma, a plataforma permitiu uma fácil integração com os sistemas já existentes na Audiogest e novas ferramentas como Business Intelligence, garantindo um crescimento sustentável.  O low-code permitiu que a equipa da Audiogest participasse ativamente no processo de inovação, reduzindo a dependência exclusiva de programadores e promovendo a autonomia e deu à Audiogest a capacidade de inovação no futuro, sem ficar presa a ciclos longos e complexos de desenvolvimento tradicional.

Como garantiram uma implementação eficiente e com impacto direto nas operações?

D.C. – A implementação eficiente da plataforma foi garantida através de três pilares fundamentais: colaboração, monitorização contínua e evolução iterativa. Colaboração entre equipas de tecnologia e negócio. Desde o início, houve um envolvimento próximo entre a Audiogest e a Glintt Next, garantindo que a tecnologia fosse desenvolvida à medida das reais necessidades da organização. Não se tratou apenas de criar software, mas sim de transformar processos. A plataforma foi integrada com ferramentas de Business Intelligence, permitindo uma visão clara da eficácia das operações e identificando áreas de melhoria em tempo real. Adotámos uma abordagem de melhoria contínua, lançando funcionalidades de forma faseada e ajustando com base no feedback dos utilizadores. O compromisso com a filosofia “errar rápido, corrigir rápido” garantiu que os ajustes necessários fossem feitos sem comprometer a operação. O impacto direto traduziu-se num aumento da eficiência dos processos, melhoria na experiência dos clientes e maior capacidade de adaptação às exigências do mercado.

Como foi o processo de transformação digital e qual o papel das equipas internas na sua implementação?

S.S – A transformação digital foi um passo fundamental para a modernização da Audiogest, abrangendo não só o licenciamento, mas também a prospeção, angariação e cobrança, bem como um conjunto de interações e operações entre a Audiogest e os seus associados e representados, que são, afinal, os destinatários últimos da nossa atividade. A tecnologia só é eficaz quando alinhada com o conhecimento e experiência das pessoas. Desde o início, incentivámos uma cultura de envolvimento e adaptação, permitindo às equipas compreenderem rapidamente os benefícios da nova plataforma. Os interfaces apelativos e intuitivos, bem como a rapidez de implementação incutida pela tecnologia utilizada, em conjunto com as equipas técnicas qualificadas e verdadeiramente envolvidas com o nosso negócio, muito contribuíram para a aceitação da mudança por parte da equipa da Audiogest, conduzindo ao sucesso do projeto, pois a tecnologia, por si só, não resolve desafios sem um uso estratégico e orientado para a criação de valor agregado.

Queremos evoluir para que os utilizadores possam gerir cada vez mais autonomamente os seus licenciamentos, continuando a melhorar a experiência do cliente e os tempos de resposta.

Silvia Sá

Melhor Projeto de Transformação Digital na área de Cultura e Media

Que feedback têm recebido dos artistas e produtores musicais sobre esta nova plataforma?

S.S – O feedback tem sido extremamente positivo. O licenciamento e cobrança de direitos sempre foram vistos como processos burocráticos e complexos, e a nossa iniciativa trouxe maior transparência e eficiência a este ecossistema. A transformação digital alargou-se a toda a estrutura de serviços da Audiogest, como a distribuição de direitos e o apoio a associados, permitindo a todos os beneficiários uma remuneração potencialmente crescente, mas também obter mais e melhor informação acerca dos nossos serviços e da forma como os seus direitos são gerados, utilizados e distribuídos. Nesta área de atuação, os produtores nossos associados, notaram bem as melhorias que temos vindo a implementar, e todos têm reagido de forma muito positiva.

A solução já foi reconhecida com o Portugal Digital Award 2024. Como avaliam esse reconhecimento e que outras distinções esperam alcançar?

S.S – O reconhecimento como “Melhor Projeto de Transformação Digital na área de Cultura e Media” é um marco importante para todas as equipas envolvidas. Este prémio destaca não apenas a inovação tecnológica, mas também o impacto positivo na gestão de direitos musicais. É muito importante referir que a eficiência na gestão, traduzida na poupança de custos e disponibilização de trabalhadores para outras tarefas, terá por consequência uma redução da comissão de gestão cobrada aos titulares de direitos, o que, a seu tempo, corresponderá também ao aumento dos montantes distribuídos. Adicionalmente, esta distinção abre portas para à replicabilidade do projeto em outras geografias e consolida a sua relevância no setor.

Solução pronta para replicar

Que planos futuros têm para expandir ou melhorar esta solução?

S.S – O nosso objetivo é continuar a simplificar a gestão do licenciamento, especialmente para setores que fazem um uso frequente de música, como a Hotelaria, Restauração e Turismo. Queremos evoluir para que os utilizadores possam gerir cada vez mais autonomamente os seus licenciamentos, continuando a melhorar a experiência do cliente e os tempos de resposta. Utilizaremos também a tecnologia para prestar informação cada vez mais customizada às diferentes atividades de forma a sensibilizar os empresários, mas também o público em geral, para a relevância do cumprimento do licenciamento e respetivo impacto na indústria da edição musical. Paralelamente, estamos focados na distribuição de direitos, investindo em tecnologia para implementar critérios, técnica e economicamente viáveis, com maior aproximação possível à utilização real da música. Num momento em que a Inteligência Artificial emerge como uma ferramenta poderosa, mas também um desafio significativo, reforçaremos também o nosso papel de capacitação, junto de artistas, produtores e profissionais do setor dotando-os de conhecimento para enfrentar as transformações e garantir a valorização da criação intelectual. A tecnologia é e será sempre uma aliada essencial, desde que utilizada com propósito, respeitando os direitos de todos os intervenientes e contribuindo para um setor musical mais forte e sustentável. Já a criação, em sentido próprio, terá sempre de ter intervenção humana.

E, a Glintt tem planos para replicar esta solução em outras áreas culturais ou setores empresariais? Em que janela temporal?

D.C – Sim, este modelo de digitalização e automação do licenciamento tem grande potencial para ser replicado em outros setores culturais e empresariais. O sucesso deste projeto na Audiogest mostrou que transformações digitais podem ser aplicadas com sucesso a processos complexos, reduzindo burocracias e aumentando a eficiência. Setores como media, entretenimento e propriedade intelectual enfrentam desafios semelhantes, e esta solução pode ser ajustada para atender às suas especificidades. A curto prazo, a prioridade é consolidar e expandir a solução dentro da Audiogest, garantindo uma base sólida. No entanto, em 2025, prevemos avaliar oportunidades para adaptação e implementação noutros setores, trazendo inovação para novas áreas de negócio.


Publicado em:

Na Primeira Pessoa

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