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«Estamos a estudar a possibilidade de entrar no leste europeu»

Daniel Araújo, CEO da Asseco PST

Publicado em 27 Fevereiro 2019 por Cristina A. Ferreira - Ntech.news | 833 Visualizações

Na canção, de «Lisboa a Bragança são 9h de distância». Na história da recém-criada Asseco PST, 31 anos separam a fundação da Promosoft da realidade atual. Pelo caminho a tecnológica madeirense mudou de nome para Exictos, em 2011, e quatro anos mais tarde passou a ser controlada pelo grupo polaco Asseco, que adquiriu 61% do capital.

Assumiu a nova identidade de Asseco PST no último trimestre de 2018 e prepara-se para abrir horizontes, com o suporte da estrutura internacional que agora integra e que, como explica ao Ntech.news Daniel Araújo, CEO da divisão, aumentou de 400 para 24 mil o número de colaboradores, potencia novas áreas de negócio e até a entrada em novos mercados.

O responsável da operação que passa a concentrar os esforços do grupo Asseco nos territórios de língua portuguesa – PST significa Portuguese Speaking Territories, explica o que mudou efetivamente na empresa com a integração e os impactos que daí advêm a nível interno e para os clientes.

Daniel Araújo também explica os pontos fortes do negócio hoje, em termos de áreas e geografias e desvenda detalhes da estratégia para 2019.     


Ntech.news: No final do ano, a Exictos anunciou uma mudança de nome, culminar da integração no grupo Asseco. Concluído este processo, que principais diferenças podem os vossos clientes encontrar na oferta/posicionamento da Asseco PST hoje e da Exictos em 2015?

Daniel Araújo: A primeira diferença está no alargamento da nossa oferta de produtos e serviços. Com a integração plena na Asseco passámos a dispor não só daquilo que era a nossa oferta tradicional junto do sector financeiro, mas enriquecemo-la transversalmente com a oferta do grupo a nível global. Sempre que surgir a oportunidade, estaremos em condições de atuar como representantes de uma oferta substancialmente ampliada já disponível noutras partes do mundo através da Asseco.

Outra diferença está no aumento do nosso espectro de competências. O facto de hoje já não sermos apenas 400, mas 24 mil colaboradores a nível global, significa também que se existirem projetos específicos em que seja necessário encontrar especialistas que tenham estado envolvidos em projetos similares noutros mercados ou de outra relevância, conseguimos fazê-lo com bastante agilidade. Do ponto de vista do cliente, esta facilidade de acesso a mais conhecimento e know-how traz um conforto acrescido e é uma mais valia para a Asseco PST.

Há ainda uma terceira diferença. Não obstante continuarmos a estar focados e sermos especialistas em países de expressão portuguesa, abriram-se novos horizontes em mercados do leste europeu. Nesta fase, já temos projetos concretos em que estamos a trabalhar que dificilmente teriam surgido se não fosse a abertura de novos espaços geográficos que o grupo Asseco nos deu.

Em termos de organização da empresa e gestão do negócio, o que muda? A marca foi uniformizada, mas a Asseco PST tem uma identidade própria. Tem também autonomia para investir ou desinvestir em novos mercados/produtos, por exemplo?

D.A.: Do ponto de vista operacional, continuamos a ter a máxima autonomia para gerir o dia a dia. A Asseco funciona com um modelo empresarial federativo que permite às empresas do grupo espalhadas pelo mundo manter uma autonomia efetiva de gestão. Não obstante nos últimos dez anos terem entrado 60 novas empresas para o grupo, desde que a operação local esteja a correr bem – como é o nosso caso – a casa-mãe não interfere nas decisões locais.

Relativamente ao que mudou, tivemos de fazer um investimento grande em eficiência e processos. Fazer parte de uma multinacional obrigou-nos a adotar metodologias diferentes das que usávamos, a par do acompanhamento financeiro que também se alterou.


«Não obstante continuarmos a estar focados e sermos especialistas em países de expressão portuguesa, abriram-se novos horizontes em mercados do leste europeu»


Por outro lado, para além destas questões internas, houve uma outra mudança com grande impacto para o exterior que foi o rebranding da empresa. A assunção de uma nova marca e de uma nova identidade corporativa – que no caso português coincidiu ainda com a mudança de escritórios em Lisboa para um novo espaço, mais moderno, funcional e tecnologicamente avançado – foi particularmente impactante. A própria designação Asseco PST (sigla relativa a Portuguese Speaking Territories) teve um significado importante para nós e para o mercado. Por um lado, dá corpo à nova imagem com a qual a empresa pretende continuar a afirmar-se em todos os mercados lusófonos onde atua. Por outro, é um tributo à sua história de 30 anos e às suas origens madeirenses enquanto Promosoft.

O grupo Asseco estende presença por vários sectores. A Asseco PST pode vir a explorar as áreas onde ainda não aposta e ser o veículo do grupo para as levar aos países de língua portuguesa?

D.A.: Sim, claro. De certa forma, este alargamento de competências e de áreas de intervenção, aproveitando as sinergias de grupo, já se materializou. Por exemplo, mesmo dentro do sector financeiro, que é o nosso core, não trabalhávamos ao nível do processamento. Nesta fase, já desenvolvemos novos projetos com especialistas do grupo nesta área que estão sediados na Europa Central e pusemo-los a trabalhar nalguns dos mercados em que a Asseco PST está presente, quer em Portugal quer em mercados africanos.

Neste momento, a Asseco PST está em oito países. Quais são os mercados que mais pesam no vosso volume de negócios e como deve evoluir esse equilíbrio em 2019?

D.A.: Há mais de 20 anos que somos uma empresa tradicionalmente exportadora. Mais de 80% da nossa faturação anual vem de fora de Portugal e esta tendência irá manter-se.

Angola é o mercado com mais peso no nosso volume de negócios e aquele onde temos o maior número de clientes: dos 60 bancos que integram o nosso portefólio, temos 23 em Angola. Trata-se de um mercado de grande relevância para a Asseco PST e onde continuaremos a investir fortemente numa perspetiva de médio e longo prazo. O ano passado, criámos em Luanda a Asseco Academy, uma academia de formação de alta qualidade em tecnologias de informação, com o objetivo de certificar novos profissionais com competências no sector financeiro. O desenvolvimento do capital humano é uma preocupação nossa de sempre e estamos preparados para expandir o conceito da academia para novas geografias.


«Angola é o mercado com mais peso no nosso volume de negócios e aquele onde temos o maior número de clientes: Dos 60 bancos que integram o nosso portefólio, temos 23 em Angola»



Em Moçambique temos igualmente uma posição relevante nos serviços prestados ao sector bancário, uma equipa residente já com grande experiência e uma operação consolidada que queremos incrementar em 2019.

Nos restantes mercados, designadamente Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Malta e Namíbia, atuamos sobretudo a partir de Portugal, fazendo deslocar regularmente gestores e técnicos às várias geografias para acompanhar os projetos em curso.

À margem dos oito países onde já operamos, estamos a estudar a possibilidade de entrar noutros mercados, designadamente no leste europeu. Este é um dos casos em que a ligação ao grupo Asseco, com a sua origem polaca, será sempre um bom passaporte.

Escritório novo da Asseco PST em Lisboa

Recentemente, a Asseco PST mudou de sede e justificava a decisão com as perspetivas de crescimento para o mercado português. Pode concretizar? Quais são as metas para este ano?

D.A.: Não foi propriamente uma mudança de sede, mas de instalações em Lisboa para um novo escritório com cerca de 2.200 metros quadrados e cerca de 260 postos de trabalho. Desenvolvemos um conceito inovador, criando um escritório de raiz muito funcional, em open space, com várias zonas específicas diferenciadas e tecnologicamente avançado, possibilitando um ambiente ainda mais colaborativo.

Este investimento acontece também porque o negócio em Portugal está a correr bem. Em 2018, conquistámos mais clientes e o nosso objetivo passa por continuar a crescer no mercado português. Estamos perante um grande dinamismo do mercado, com uma expansão acelerada de tudo o que é digital e a introdução de soluções tecnológicas com um elevado índice de inovação. Uma das áreas em que os bancos mais têm investido tem sido nos meios de pagamento. A Asseco PST criou uma oferta vencedora nesta área e conseguimos entrar num conjunto de clientes onde não estávamos. Este é o ritmo que queremos manter e aprofundar.

A banca é um dos vossos sectores mais fortes. É também um sector em transformação, profundamente desafiado pelas Fintech. No terreno e em concreto, o que esperam deste sector para este ano em termos de investimentos e estratégia digital, tendo em conta toda a envolvente?

D.A.: A transformação digital dos bancos é seguramente uma das tendências atuais mais marcantes. Desde a conversão dos dados em informação relevante à gestão da relação com o cliente num único ponto, passando pelos canais eletrónicos, com as novas soluções de internet banking e mobile banking, novas apps e inteligência artificial, há um conjunto de itens em que o investimento da banca continua muito forte.

Tudo isto acontece porque as instituições financeiras tradicionais são cada vez mais confrontadas com as Fintech. A perspetiva do utilizador mudou muito e o sector bancário terá necessariamente de acompanhar a mudança. Acredito que daqui a 10 ou 15 anos ninguém falará mais em Fintech, da mesma forma que hoje ninguém fala das dotcom. As empresas de comércio eletrónico que nasceram na era dotcom, como a Amazon, eBay, Alibaba e tantas outras, são hoje players relevantes do mercado, tendo obrigado os incumbentes a reinventar-se. A mesma coisa está a acontecer no sector financeiro: fala-se muito das Fintech, mas os bancos terão eles próprios de mudar de agulha e tornarem-se muito mais digitais.

Num futuro não muito distante teremos um sector financeiro, assente na prestação de serviços, mas com uma forma de atuação diferente do atual. Uma das áreas em que os investimentos continuarão a acelerar será na componente da usabilidade, com foco na melhoria constante da experiência do utilizador, ou seja, do cliente bancário.


Publicado em:

Na Primeira Pessoa

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