O Estado precisa de ser mais ágil e interoperável
A transformação digital do setor público português entrou numa nova fase, marcada pela adoção estratégica de inteligência artificial, pela simplificação administrativa e pelo reforço das infraestruturas críticas. A conclusão é do artigo “Portugal e a transformação do setor público”, da Deloitte, que aponta para uma mudança estrutural na governação, com impacto direto na eficiência do Estado e na relação com cidadãos e empresas. Segundo a Deloitte, está em curso uma evolução de estruturas tradicionalmente burocráticas para organizações mais ágeis, digitais e centradas nas pessoas.
O estudo identifica seis tendências principais que estão a moldar a transformação do setor público. Entre elas destacam-se a redução da despesa e o aumento da eficiência operacional, a adoção responsável da inteligência artificial, a modernização dos serviços públicos, o reforço da infraestrutura e da resiliência energética, bem como o investimento na qualidade de vida dos cidadãos.
Para Miguel Eiras Antunes, partner e líder de setor público da Deloitte e autor do artigo, aplicação da IA na administração pública vai «permitir profundas melhorias operacionais, acima de tudo se considerarmos que os governos centrais, devido à sua dimensão e complexidade, tendem a ser mais burocráticos». De acordo com este responsável, existem, inclusivamente, vários casos de sucesso em que foi possível «otimizar processos e aprimorar a avaliação do impacto gerado».
Paralelamente a este processo, Miguel Eiras Antunes defende que será também necessário «investir em inovação e na capacitação de recursos humanos, de forma a garantir a competitividade». A inteligência artificial surge como catalisador da eficiência administrativa, mas não de forma isolada.
GenAI e serviços públicos mais eficientes
Entre as tendências com maior relevância para Portugal, o artigo destaca a adoção estratégica de inteligência artificial no setor público e a modernização dos serviços. De acordo com a Deloitte, os governos mais avançados estão já a utilizar GenAI para simplificar processos administrativos, traduzir linguagem técnica para conteúdos acessíveis e automatizar tarefas repetitivas. O objetivo é libertar recursos humanos para funções de maior valor acrescentado e melhorar a experiência do cidadão.
Em Portugal, a revisão da Estratégia Nacional para a Inteligência Artificial e a criação de uma regulatory sandbox nacional são apontadas como passos concretos para uma adoção mais estruturada e responsável destas tecnologias. Miguel Eiras Antunes sublinha que «o projeto português Amália é um exemplo do desenvolvimento de modelos próprios de IA para uso do Estado, cidadãos e empresas, garantindo um maior controlo, transparência e segurança dos dados públicos», sendo um «caso promissor de soberania tecnológica e proteção de dados».
Menos burocracia e mais interoperabilidade
A simplificação administrativa é outra prioridade central. Países como os Estados Unidos estão a recorrer à inteligência artificial para identificar normas redundantes e custos ocultos, eliminando barreiras processuais. Em Portugal, programas como o Simplex+ refletem essa orientação para a redução da burocracia e a modernização da relação entre o Estado, as empresas e os cidadãos. O desafio seguinte, segundo o artigo, é assegurar a interoperabilidade entre sistemas e a integração efetiva dos canais digitais e presenciais, para que seja possível garantir serviços públicos mais ágeis, inclusivos e personalizados.
O autor acredita que sem integração tecnológica, não há verdadeira transformação. O documento analisa igualmente a necessidade de reforçar infraestruturas resilientes, acelerar a transição energética e preparar os empregos do futuro. A requalificação de milhões de trabalhadores das administrações públicas é considerada urgente.
No domínio das infraestruturas, a prioridade passa pela adoção de novas tecnologias e processos que permitam gerir melhor orçamentos e prazos, evitando derrapagens. A Deloitte destaca a importância de simplificar a concessão de licenças e de reforçar a transparência, evidenciando o potencial da modernização tecnológica em todas as fases do desenvolvimento de projetos. A resiliência e a segurança energética assumem também um papel central. O artigo sublinha a necessidade de expandir a infraestrutura energética e de desenvolver ecossistemas que integrem novas fontes de energia, respondendo às exigências de um sistema cada vez mais descentralizado e digital, de forma a garantir estabilidade do sistema e reforçar a resiliência face a picos de consumo e eventos climáticos extremos.
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