Trabalho remoto veio para ficar. O que ganham as empresas com esta nova realidade?
No top das frases que marcam esta crise sanitária estará seguramente aquela que diz que nada será como dantes, ou a referência ao novo normal. Mesmo que ainda ninguém saiba bem o que uma ou outra podem significar, o que já é claro é que algumas das mudanças que as empresas se viram obrigadas a fazer para responder à pandemia vieram para ficar. Desde logo, o trabalho em ambientes remotos.
«Acho que já conseguimos todos perceber que somos igualmente eficientes em modo remoto», destaca Nuno Figueiredo, board member da Abaco Consulting, em declarações ao Ntech.news. Uma conclusão que terá reflexos no novo normal que as empresas já estão a construir e que acarreta vantagens inegáveis. «O facto de haver menos deslocações (menos tempo em viagens) vai permitir um aumento de interações diárias e o ritmo com que tomamos (ou recebemos) decisões vai acelerar».

O revés do esperado recurso crescente ao teletrabalho, num mundo pós-pandemia, obrigará por outro lado ao reforço de investimento em algumas áreas, como também sublinha Nuno Figueiredo, desde logo na segurança das redes e das aplicações e na capacidade de gerir o tráfego de grandes quantidades de informação.
Esta é aliás uma premissa que as notícias dos últimos dias deixaram bem clara, com vários especialistas em segurança a virem a público reconhecer que o número de ciberataques a empresas não para de aumentar e, pior que isso, que a taxa de sucesso destas ações é grande, precisamente porque muitas organizações – sobretudo PMEs – não estavam preparadas para transferir o negócio para uma gestão remota.
Empresas vão ter melhores condições para competir a uma escala global
Mas o balanço desta mudança já em marcha, na opinião do gestor, é claramente positivo porque vai refletir-se no alcance das empresas a nível de mercado, defende. «O modelo descentralizado de trabalhar e negociar vai permitir que o nosso mercado passe efetivamente a ser global, uma vez que iremos fazer negócio de igual modo com um cliente português ou com um cliente em qualquer parte do mundo, porque a transformação digital chegou e depois de se estranhar…entranhou-se».
Pedro Sousa, diretor comercial e de operações de outsourcing da Randstad, olha para o futuro de um prisma semelhante e acredita que a prazo a realidade que empresas como a que representa já têm – 70% dos 12 mil trabalhadores alocados aos contact centers da Randstad atendem remotamente – vai estender-se a cada vez mais negócios.
«A questão é como é que a legislação e os modelos de gestão se vão adaptar» a esta nova realidade, antecipa. Por outro lado, Pedro Sousa acredita que esta alteração brusca veio trazer clareza e acabará por desmistificar alguns receios que estavam no topo da agenda, sobre a relação entre o humano e a tecnologia no futuro do emprego e das empresas.
Pandemia mostrou que equilíbrio entre tecnologia e pessoas é possível…e imprescindível
«Esta experiência veio-nos mostrar a importância de equilibrar a relação tech&touch, destacando o papel da tecnologia para suportar as pessoas e a importância das pessoas na relação umas com as outras, a importância de nos ligarmos e ao mesmo tempo estarmos a humanizar as empresas», sublinha, apontando o exemplo dos serviços ao cliente.
O atendimento por voz, chat e redes sociais feito por pessoas permitiu que as empresas se aproximassem dos seus clientes e as acompanhassem numa altura de distância social, nota o responsável, «suportando compras, acompanhando serviços, estando verdadeiramente ali, vivos, com uma resposta e não apenas com automatismos que dificilmente se adaptariam a um contexto emocional muito diferente».
Os cinco gestores que colaboraram com o Ntech.news neste especial sobre as dificuldades e oportunidades da crise pandémica para as PMEs portuguesas, acreditam que os clientes das suas empresas saem desta crise a valorizar e a compreender melhor o papel da tecnologia na eficiência dos seus negócios.
Francisco Rodrigues, diretor de vendas da GSTEP, sublinha isso mesmo e junta-lhe uma esperança: «julgo que vai haver uma confiança reforçada nas soluções tecnológicas e no que estas permitem e espero que os hábitos e rotinas que se estão a criar para promover a eficiência e a partilha de informação se mantenham no futuro, especialmente a confiança na qualidade da informação».
Ganhará espaço a mobilidade, mas também outras tendências que fluíam a ritmos bem diferentes no tecido das PME, como a automação, a comunicação na nuvem, a escalabilidade na comunicação, acesso permanente à internet ou o big data, antecipa ainda Sara Oliveira, COO & Head of Consulting Services Create IT.
Publicado em:
AtualidadePartilhe nas Redes Sociais