Teletrabalho e processos por desmaterializar puseram PMEs à prova
Com mais de 80 mil empresas em lay-off, milhares de outras continuam a trabalhar em Portugal. Uma larga fatia destas organizações são PME e boa parte delas não estava preparada para o que tinha de enfrentar, mas a realidade obrigou-as a acelerar o passo da tão falada transformação digital e não sobrou hipótese que não fosse a de pôr mãos à obra.
As dificuldades mais identificadas por quem fornece suporte tecnológico ao tecido empresarial mudam consoante o âmbito dos serviços disponibilizados, mas também consoante o tipo de negócio e a velocidade de reação de cada empresa, admite Sara Oliveira, COO & Head of Consulting Services Create IT, em declarações ao Ntech.news.
Se para algumas empresas o teletrabalho já era uma realidade em velocidade de cruzeiro, para outras foi preciso «repensar o próprio negócio e a forma como os colaboradores trabalham e interagem», admite a responsável, que precisamente por isto elege o teletrabalho como um dos maiores desafios que as empresas têm enfrentado nestes tempos de pandemia. Até porque, muitas PME estão ainda dependentes de infraestruturas físicas que limitam o processo. A esta juntam-se outras fragilidades.
Dificuldades na utilização de ferramentas colaborativas não ajudam
«Por outro lado, [muitas empresas] não têm ou não conseguem usar com eficiência ferramentas que facilitem o trabalho a partir de qualquer lugar. Mesmo quando este cenário é possível e viável existe desconhecimento sobre como utilizar as TI ao serviço das equipas», acrescenta Sara Oliveira, identificando aqui mais um desafio: o da agilidade.

Mas a migração para o teletrabalho não trouxe apenas questões de base tecnológica e José Vilarinho, CEO da Opensoft está entre os que apontam todas as alterações ao nível dos métodos e procedimentos de trabalho como a grande questão do processo. «O teletrabalho é um desafio e não basta uma infraestrutura tecnológica para o suportar, é também preciso um alinhamento entre a liderança e os colaboradores da empresa para que o negócio continue a funcionar», sublinha o responsável.
Outra condicionante ao sucesso da gestão e operação remota de um negócio é a existência de processos não desmaterializados, que seguia a ritmo lento em muitas empresas. Para Nuno Figueiredo, board member da Abaco Consulting, está precisamente aí uma das maiores dificuldades que as empresas têm enfrentado na adaptação a esta nova realidade, limitada nas interações físicas.
O responsável, um dos cinco gestores ouvidos pelo Ntech.news num Especial sobre as maiores dificuldades e oportunidades para as PME nesta altura de pandemia, dá dois exemplos: a faturação (receção, tratamento e envio de faturas em papel) e o pagamento por cheques, dois tipos de operações que ainda fazem parte do dia-a-dia de milhares de empresas em Portugal.
Quem apostou na cloud tem conseguido responder às dificuldades com maior tranquilidade
Nuno Figueiredo também admite que tem encontrado maior tranquilidade nas empresas que suportam as suas infraestruturas em soluções cloud, face às empresas com modelos on premise que, por razões óbvias, têm dificuldades acrescidas na gestão de uma mudança tão rápida na organização, seja ao nível dos postos de trabalho ou das formas de acesso a informação crítica.
Note-se que, de acordo com os último números do Eurostat, divulgados em fevereiro, só 6,1% da população ativa portuguesa trabalha com frequência a partir de casa, um número que cresce de ano para ano, que está acima da média europeia (de 5,2%) e que, muito provavelmente já voltou a crescer, uma vez que assenta em dados de 2018. Ainda assim, é marginal e não deixa dúvidas sobre o tamanho da mudança que a saída repentina do escritório para casa, trouxe a centenas de PME.
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