«Numa Affinity Company, ninguém espera ordens, todos tomam decisões e vivem as consequências do que constroem.»
A Affinity está a desafiar as estruturas tradicionais das empresas. Em entrevista exclusiva ao Ntech News, Carlos Pais Correia, CEO da empresa, revela como está a transformar colaboradores em verdadeiros líderes empresariais, com autonomia total para criar, gerir e escalar unidades de negócio próprias dentro do grupo. Um convite que pode levar o mercado a repensar o intraempreendedorismo e a liderança corporativa em Portugal e na Europa.
Ntech.news – O que é exatamente uma “Affinity Company”? Em que se diferencia de uma unidade tradicional dentro de uma empresa?
Carlos Pais – Uma Affinity Company (AfC) é o oposto de uma “caixa” hierárquica dentro de uma organigrama. É uma empresa com identidade e marca própria, liderada por um intraempreendedor que actua como CEO, com total liberdade para definir estratégia, equipa, marca, clientes e objetivos. A diferença? Numa AfC ninguém “espera ordens”, todos tomam decisões e vivem as consequências do que constroem.
Quem pode candidatar-se a criar uma unidade de negócio dentro da Affinity? Apenas colaboradores actuais ou também candidatos externos?
C.P. – Ambos. A Affinity está aberta a quem já está dentro e a quem ainda não chegou — desde que traga visão, coragem e vontade real de liderar. O modelo não distingue “de casa” ou “de fora”; distingue quem quer deixar marca de quem prefere ficar confortável. São mindsets diferentes e está tudo bem com isso.
Quais são os critérios de seleção ou perfil ideal para se tornar líder de uma AfC?
C.P. – Mentalidade de dono, mentalidade de ceo, capacidade de decisão, visão estratégica, humildade para aprender e, acima de tudo, resiliência. Não procuramos “perfeição de slide deck”, procuramos quem tem fome de construir, errar rápido e crescer pessoalmente e profissionalmente com isso.
O modelo prevê investimento inicial por parte do intraempreendedor? Ou apenas compromisso e responsabilidade?
C.P. – Não exigimos capital, exigimos compromisso. O investimento inicial — financeiro, tecnológico e humano — é totalmente assegurado pela Affinity. Disponibilizamos todos os serviços internos de apoio ao negócio, incluindo marketing, tecnologia, talento, operações e jurídico, para que o intraempreendedor possa focar-se no essencial: fazer crescer o seu negócio. Em troca, exigimos responsabilidade total — sobre decisões, pessoas e resultados. Quem entra sabe que não está a gerir um projeto, está a liderar uma empresa real, com potencial em 2025 para atingir os 5M€ de faturação… e muito mais no longo prazo.
Um negócio que não cresce, morre
Como é feito o acompanhamento estratégico ao longo do tempo? É contínuo ou pontual?
C.P. – É contínuo, mas nunca invasivo. Cada AfC tem acesso direto a mentoria estratégica nas áreas de business development ou gestão de uma operação (incluindo do CEO), controle dos principais OKR’s KPI’s da área, partilha de boas práticas entre unidades, e suporte dedicado em tecnologia, marketing, talento ou recrutamento. O COO, função transversal Affinity garante alinhamento global, disciplina e performance operacional e consistência entre as AfCs. Enquanto o CBO, também função transversal Affinity, acompanha de perto o desenvolvimento do novo negócio, acompanha os líderes no terreno nas suas estratégias, ajudando-os a traduzir visão em execução. O objetivo é apoiar sem sufocar — cada líder é livre para tomar decisões, mas nunca está sozinho para enfrentar os desafios.
Que tipo de decisões são 100% autónomas e quais continuam centralizadas?
C.P. – Estratégia de negócio, mercados, posicionamento, gestão da marca, gestão equipa corporate, modelo de delivery, gestão de eventos e carteira de clientes são 100% autónomos. A identidade Affinity (valores, princípios e critérios éticos) é o denominador comum e não é negociável.
Que indicadores são utilizados para avaliar o sucesso das unidades de negócio?
C.P. – Rentabilidade, crescimento, retenção de talento, desenvolvimento de novos lideres, satisfação do cliente e grau de autonomia operacional. Mas o sucesso vai além dos números: avaliamos também o impacto cultural, e a capacidade de inovar dentro do ecossistema Affinity.
Há objetivos mínimos de crescimento ou metas obrigatórias a cumprir?
C.P. – Não há metas impostas — há expectativas partilhadas e negociadas no início de cada ciclo de atividade. Cada AfC nasce com um plano ambicioso, mas realista, definido pelo próprio líder. A nossa única exigência é que haja movimento ascendente — porque um negócio que não cresce, morre.
Qual foi o tempo médio até cada unidade atingir a rentabilidade?
C.P. – Entre 6 a 12 meses, dependendo da experiência do líder, do foco comercial e da capacidade de execução. Mas desde o início que todas operam com contas próprias e acompanhamento rigoroso — não há “fundo perdido”.
Os líderes têm acesso a incentivos baseados nos resultados gerados? Como é feita essa partilha de valor?
C.P. – Sim, e de forma muito clara. O líder de uma AfC participa diretamente nos resultados operacionais da sua unidade. A distribuição dos resultados operacionais tem diferentes fontes, desde variável resultante do desenvolvimento de novo negócio, participação na margem operacional global gerada ou variável resultante do delta de crescimento anual. Ganha mais se a empresa for saudável, sustentável e dinâmica— como qualquer empreendedor deve ganhar.
Transformar talento em impacto real
Já houve casos de unidades que não funcionaram?
C.P. – Sim e ainda bem. Só não falha quem não tenta. Na Affinity, preferimos uma AfC que arrisca e aprende, do que uma unidade que vive de PowerPoint e medo. Quando uma AfC não atinge os objetivos, existem três cenários possíveis:
- Reformulação do modelo com o mesmo líder, se houver aprendizagem e margem de recuperação.
- Passagem de liderança para outro perfil com mais aderência ao desafio.
- Dissolução da unidade, com reintegração dos talentos e ativos noutros projetos.
O erro faz parte do processo, mas a estagnação não. O que importa é a coragem para recomeçar melhor — com ou sem a mesma estrutura.
Qual é o objetivo a médio prazo: quantas unidades pretende a Affinity criar até 2030?
C.P. – Queremos ter entre mais de 10 AfCs ativas em Portugal e na Europa até 2030 — cada uma com ADN próprio, mas ligadas pela mesma visão: transformar talento em impacto real. Não se trata de quantidade, mas de criar um verdadeiro universo de empresas dentro da Affinity.
Que mensagem deixa a profissionais que têm espírito empreendedor, mas receiam não ter apoio ou estrutura para avançar?
C.P. – A grande mentira que nos contam é que é preciso sair da empresa para empreender. Aqui, na Affinity, criámos uma ponte. Se tens talento e visão, vontade de criar algo teu, não deixes que o medo do “como começar” te prenda. Sabemos que há profissionais que precisam de saber o que é para fazer ou receber ordens — e está tudo bem com isso. Mas há outros que precisam de liderar o seu destino, deixar marca, construir algo com impacto — sem se preocuparem com salários, faturas ou cobranças. É precisamente para estes que este modelo foi pensado e criado. Estamos a dar os primeiros passos, mas já se sentem os ventos de mudança. O mindset está a evoluir — e isso só acontece quando se abre espaço para que novas ideias encontrem raízes.
Publicado em:
Na Primeira PessoaPartilhe nas Redes Sociais